Os Louros
de Nika Oduarg
Foi uma merda. Acho que é essa a única conclusão honesta a tirar disto tudo. Gostava de conseguir dizer que, apesar de tudo, houve beleza. Que existiu qualquer coisa suficientemente boa para me prender aqui. Mas não houve. Houve dias. Uns atrás dos outros. E aquela sensação persistente de que a vida acontecia sempre noutra mesa, noutra casa, no corpo de outras pessoas.
Nunca me senti escolhido.
Há quem nasça com uma espécie de luz. Não precisam de fazer nada. Entram numa sala e o mundo abre-lhes espaço. As pessoas sorriem-lhes com facilidade. Tocam-lhes no braço quando falam. Perguntam-lhes se chegaram bem a casa. São amados sem esforço. Têm sorte.
Eu via isso neles. Ela loura, com os seus filhos louros, naquela vida dourada e brilhante. Pareciam felizes. Sorridente e brincalhona, a metê-los no carro para os levar à escola, olhava-os com aquele olhar amoroso e terno, da mesma forma que a vida os olhava. Havia qualquer coisa absurdamente harmoniosa naqueles pequenos momentos: o mais novo agarrado ao casaco dela, a rapariga a reclamar da mochila, ela distraída à procura das chaves dentro da mala enorme. Às vezes, ria-se sozinha antes de entrar no carro. Como se a felicidade fosse algo tão natural, que nem dava por ela.
Eu observava-os do outro lado da rua.
No princípio, dizia a mim mesmo que era coincidência. O café da esquina tinha boa vista para a bonita entrada da casa deles. Depois, comecei a chegar mais cedo. Sentava-me sempre na mesma mesa. Aprendi os horários sem querer.
O marido louro saía primeiro. Carro preto, descapotável de alta cilindrada. Gravata desapertada. Cara de homem cansado de coisas importantes. Ela beijava-o à porta antes de meter os miúdos no SUV. Havia dias em que ele mal olhava para trás.
Ela nunca parecia reparar.
À noite, as luzes da casa acendiam-se uma a uma. A da cozinha primeiro. Depois, a do quarto das crianças. Mais tarde, a do escritório; ele passava horas fechado lá, de volta do computador, com auriculares nas orelhas.
Ela, por vezes, adormecia cedo no sofá. Uma vez, o miúdo desceu as escadas já de pijama, meio a dormir, e ela pegou-o ao colo sem acordar completamente. Ficaram assim, abraçados, alguns minutos. A cabeça dele caída no ombro dela.
Lembro-me de pensar que nunca ninguém me segurou daquela forma.
Foi nessa altura que comecei a odiá-los.
Não pela maldade deles. E nem sequer eram pessoas especiais. Eram felizes, com aquela felicidade morna e inconsciente, dos que nunca precisaram de questionar se mereciam existir.
Os louros vivem assim. Convencidos de que o mundo é um lugar bom e seguro.
Às vezes, imaginava contar-lhe tudo. Dizer-lhe que ele não era o homem que ela julgava. Que havia coisas erradas naquela casa. Coisas podres por baixo de toda aquela luz quente.
Mas depois percebi uma coisa: ela não queria saber. Nenhum deles queria.
As pessoas felizes protegem-se da verdade como os animais se protegem do frio. Encostam-se umas às outras e fingem que o Inverno não existe.
Na noite em que eu entrei, a porta da cozinha estava destrancada.
Lembro-me de ter pensado que alguém devia avisá-los de como aquilo era perigoso.
Subi as escadas devagar para não acordar os miúdos. Ela foi a primeira a ouvir-me. Sentou-se na cama ainda confusa, de cabelo desfeito, olhos sonolentos e intrigados. Quando percebeu que eu não pertencia ali, tentou gritar. Pedi-lhe silêncio. Apertei-lhe o pescoço e disse-lhe que ia acabar depressa.
Ela debateu-se muito mais do que eu esperava. Há qualquer coisa animal nas pessoas, quando compreendem que vão morrer. Um género de recusa absoluta. Como se a alma soubesse lutar, mesmo quando o corpo já devia estar cansado.
Só perto do fim é que ela olhou para mim de verdade. Não com raiva, mas com pena. Isso quase me fez parar.
Os miúdos foram mais difíceis.
O rapaz acordou primeiro. Ainda hoje, penso nos olhos dele quando me viu sentado na cama. Não era um olhar de medo ao início. Só de confusão. Eram os olhos de alguém que acreditava que os adultos explicam tudo. Usei uma almofada de penas, vestida com uma fronha branca de algodão macio, perfumada a néroli.
A irmã tentou fugir, mas depois, finalmente, o quarto ficou em silêncio.
Deitei-os juntos, na cama da mãe. Pareciam adormecidos. Em paz. O candeeiro da mesa-de-cabeceira iluminava-os. Ajeitei-lhes as madeixas louras sobre as bonitas faces, agora verdadeiramente serenas. Pareciam anjos.
Sentei-me na poltrona de veludo em frente à cama durante algum tempo. Fumei um cigarro. Respirei fundo. Pela primeira vez em muitos anos, senti qualquer coisa parecida com tranquilidade.
Tinham escapado.
Nenhum deles iria descobrir como a vida realmente é. Nunca iriam conhecer aquela fome funda que aparece quando percebemos que a sorte e o amor acontecem aos outros com uma facilidade quase humilhante.
Fiquei feliz por eles.
Depois, esperei pelo marido.
Quando abandonou o escritório e chegou ao quarto, começou a gritar o nome deles, e eu senti uma coisa quente a espalhar-se dentro de mim. Não era propriamente alegria, era algo mais próximo de justiça.
Os gritos dele quando encontrou os corpos foram a coisa mais sincera que ouvi em toda a minha vida.
Sorri.
Sorri quando a polícia me levou.
Sorri no julgamento.
E agora, a poucas horas da minha morte, continuo a sorrir sem sentir remorsos. Na verdade, sinto alívio, por os ter salvo.
Só tenho pena de uma coisa. Pena de nunca ter sido um deles.
Um louro.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Nika Oduarg
Terráquea de mente curiosa e inquieta, nascida há 2.0869565217319E-7 anos galácticos em 38,660 625, -9,075 508, exportada para onde a alma lhe voa, apaixonou-se por 38,708 6813, -9,453 8802, onde reside há mais de metade da sua existência. Filha, amiga, esposa, mãe de dois seres maravilhosos que lhe embalam o coração. Sonhadora, que adora perder-se nos seus pensamentos e que não consegue viver feliz, sem projetos onde possa dar asas à sua criatividade, privilegia os momentos de quietude e de tranquilidade. Adora aprender sobre diversos temas, e não dispensa como lazer a música e o cinema. Gosta de animais, de pessoas, de factos estranhos e de escrever.







