Os Velhos do Condomínio
De Carlos Filipe R. Matos
No prédio em frente, vivia uma grávida.
Com quase seis meses de gravidez, e mãe solteira, foi recebida com devoção pela grande maioria dos residentes, que eram idosos.
Habitualmente, como eu, ela desligava a televisão e recolhia ao quarto, mas certa noite não saiu do sofá. Adormeceu exausta, pensei.
Pela madrugada, acordei sobressaltado com um som branco. Na sala, olhei pela janela e vi a estática da televisão a iluminar-lhe o apartamento. Conseguia ver a rapariga sentada, parecia estar de olhos abertos.
De súbito, o corpo dela entrou em convulsão. Um grito violou o silêncio do condomínio.
Ninguém acordou.
Liguei de imediato para o INEM, que a encontrou sem vida, coberta de sangue: foi-lhe forçada uma cesariana e roubaram-lhe o bebé. As câmaras da entrada não captaram ninguém.
Meti o meu apartamento à venda e não regressei. Entretanto, tive de recusar a primeira proposta, pois o casal esperava gémeos.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Carlos Filipe R. Matos
Carlos Filipe Rilhó de Sousa Matos nasceu em Faro, a 21 de julho de 1981, e reside em Quarteira. Depois de Ficheiros Secretos, Twin Peaks, Twilight Zone, Riget e outros, veio o interesse por literatura de terror, com um interesse pouco saudável nos cenários macabros de Clive Barker, Lovecraft, H.R. Giger, Junji Ito e amigos. A forte ligação ao terror literário e cinematográfico do rock e metal juntam os hobbies de escrita, bateria e jogos de computador, claro.







