Mas Também
de Inês Montenegro
Não havia monstros debaixo da cama: a mãe confirmara-o. Para sossegar ainda mais o filho, procurou também no armário e atrás das cortinas, antes de trancar a janela.
— Pronto, amor — terminou, sentando-se à beira da cama, onde já o entalara entre os lençóis. — O bicho-papão não está aqui.
Ainda assim, Vicente mordeu o lábio inferior, já maltratado, fixando-a numa incerteza desfasada da sua idade. Merda, pensou Nádia. Não se tratava de um medo imaginário. Acariciou o filho, com a mão terna entre os caracóis soltos.
— É outra vez aquela tua colega? — perguntou. — A Beatriz?
Vicente assentiu, num gesto de cabeça. Nádia suspirou. A decisão de avançar com aquela gravidez, consequência de uma relação fugaz, numa noite fugaz, não fora fácil: primeiro os pais,
(mal saíste da faculdade, filha, ainda agora começaste o novo emprego, ai, valha-me deus, que dirão as pessoas, a galderice, que educação a que te demos, e sem homem a quem chamar pai, como fizeste isto à tua vida, tanto que hoje se sabe, nádia, oh, nádia)
depois o Ministério Público, a apertar e a apertar,
(descrição muita vaga, minha senhora, o que bebeu, exatamente? alguma droga? os sentidos, perdeu os sentidos? quem mais estava consigo, saiu com quem? alguém que possa ajudar a encontrar o pai, a descrever o homem, um funcionário do bar, um segurança… isto de pai incógnito já não é tão fácil como dantes, sabe que os direitos da criança…)
mas acabara por ter de ser, porque nem Nádia se recordava dele nem testemunhas havia que o identificassem, e Vicente, tão pequenino, tão enrugadinho que na altura era, lá se registou com pai incógnito e processo de paternidade arquivado.
Nádia achara que as maiores dificuldades estariam em criar o filho sozinha — física e monetariamente, sem considerar ainda o emocional. Mas, entrado Vicente na primária, apercebeu-se de que as agruras dos primeiros anos não a tinham preparado para o que teria ainda de enfrentar: a crueldade infantil. As palavras duras atiradas à menina de choro fácil; a ostracização ao rapaz que gaguejava a ler o que já todos entoavam com fluidez; o riso à rapariga do estojo roto.
A perseguição ao menino sem pai.
Até então, Nádia desconhecia quão profundo poderia ser o ódio por uma criança de seis anos. «Beatriz» tornara-se a palavra que mais a fazia ferver.
Os pais, relembrava-se. Isto vem tudo de casa. A miúda só repete o que vê.
— Tens de ser paciente. — Forçou as palavras que sabia serem as devidas, ainda que ocas. Teria de falar com a diretora. Marcaria uma reunião. Exigiria um término àquele comportamento. Mas, para já, precisava de ensinar o filho a ser melhor pessoa. — Ela não tem noção do que diz. Não sabe nada, meu amor. Amanhã, vou à escola e tenho uma conversa com a diretora, vais ver como se resolve.
Vicente encolheu-se, a cabeça fugindo ao toque dela. O queixo estremeceu-lhe, e o coração de Nádia mirrou ao vê-lo assim.
— Não, mamã — pediu. — Não faças isso. Não faças nada.
— Tem de ser, querido, ela não pode continuar a dizer-te as coisas que diz.
Vicente desviou o olhar da parede, voltando a fixá-la. Nádia surpreendeu-se com a secura que encontrou: julgara que o filho chorava; enganara-se.
— O bicho-papão trata dela — respondeu Vicente. — Disseste que ele ia atrás dos meninos que se portam mal.
Nádia corou.
— Pois, claro… Mas sabes, querido, às vezes é preciso uma ajudinha…
Envergonhava-se daquele subterfúgio, a historieta a que, quando mais nova e desesperada, durante as piores birras do filho, recorrera para o controlar.
(o papão vem-te buscar! ele adora meninos que não comem a sopa, adora meninos que não vão dormir, adora meninos que não fazem o que a mãe diz! vem-te buscar e papa-te todo, todinho, nem os ossos ficam, vicente, nem os ossos!)
Ficara tarde: continuaria a conversa no dia seguinte. Debruçou-se sobre o filho, afastando-lhe os caracóis da testa para um beijo de boa-noite.
— Dorme bem, bebé.
Fechou a porta, deixando no quarto as sombras criadas pela luz de presença. Vicente fixou o teto, de olhos bem abertos e mente desperta. A mãe queria ajudar, mas estava errada. A diretora nunca fazia nada, e palavras era o que Beatriz usava: conversar era usar palavras, e as da colega eram demasiado fortes, demasiado más.
(o vicente não tem pai, não tem pai, não tem pai. O vicente é um bebé de discoteca, discoteca, discoteca)
O corpo começou a pesar, afundando-se na sombra, deixando-se abocanhar por ela. A luz de presença apagou-se enquanto ele viajava, deixando o quarto para trás, naquela brincadeira que aprendera a fazer e de que a mãe nunca soubera. As costas bateram, num repente, contra a madeira do quarto de Beatriz. Os estrados da cama dela sobre Vicente. Conseguira: das sombras dele para as sombras dela. Ouviu-lhe a respiração, regular e inocente, indiferente ao mal que durante o dia causava. Sentiu-lhe o cheiro da carne, da pele e do cabelo, e, na boca dele, cresceu a saliva.
(nem os ossos ficam, vicente, nem os ossos!)
Vicente rebolou e estendeu o braço, arrastando-o pelo colchão. A mãe não sabia. Ele tinha pai, um que não via e não conhecia, mas que descobrira. Que outro poderia ser para que Vicente fosse o que seria naquela noite?
(vem-te buscar!)
O papão debaixo da cama.
(beatriz não acordou. e nem os ossos ficaram)
SOBRE A AUTORA
Inês Montenegro
Inês Montenegro escreve sobretudo ficção especulativa. Tem contos publicados em antologias e fanzines, tanto portuguesas quanto brasileiras. Trabalha como revisora freelancer, tendo concluído o mestrado de Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. Pelo meio, vai diversificando as experiências laborais e os projetos de voluntariado cultural. É nortenha de alma e nascimento.







