Par de Meias
de Carolina Fidalgo
Onde uma acabava, começava a outra. A pele de ambas era uma só tenda, cobrindo duas ossaturas e um par de espinhas paralelas, criaturas de vigia sobre trezentos e sessenta graus. Nunca se tinham visto cara a cara. Ainda assim, conheciam-se desse outro lado — o interior da máscara, o refúgio da tenda —, onde realmente importava.
Uma era Tiana. A outra, Miana.
À noite, Tiana esperava que a irmã adormecesse e tacteava a dobra que lhes ligava os corpos. Fazia que a cortava com os dedos em tesoura.
Era só uma fantasia. Os médicos diziam que a cisão não era segura. Viviam unidas há vinte e três anos.
Certo dia, um telefonema convocou-as à possibilidade. Possibilidade não era certeza, mas era, ao menos, menos certo que perecessem. Tiana e Miana eram boas irmãs, conhecendo-se fundo do outro lado, mas uma e outra tinham bons motivos para tentar a solidão. Pediram a lâmina.
Quando as dividiram, foi como se uma folha dobrada ao meio se desdobrasse. Lado a lado, acordaram sozinhas, uma e outra asa da mesma borboleta. Levantaram-se ao mesmo tempo e puseram-se espantadas a mirar o próprio rosto nos olhos. Que estranho, Tiana ser Miana e Miana ser Tiana. Mas, se não lhes soube bem terem-se em duplicado, depressa se amainaram ao saírem do hospital, para seguir caminhos opostos.
Tiana foi estudar na universidade. Saiu-se bem e tirou doutoramento no estrangeiro. Conheceu por lá um alemão e tiveram pequenas crias meias-tianas, meias-alemãs.
Miana começou a trabalhar numa retrosaria. Nunca saiu da sua cidade e nunca conheceu ninguém que a quisesse conhecer.
Um dia, esperando os clientes que nunca vinham, olhou-se ao espelho e viu-se meia: a nuca única e desguardada, as pernas em desequilíbrio sem o par, o corpo desprotegido na traseira.
Num impulso, pegou na tesoura e começou a cortar. Cortou e cortou até ficar em duas. As duas metades desdobraram-se e, pasmadas, fitaram-se olho no olho. Com o horror estampado na face, Ana apressou-se a sair da retrosaria ao pé-coxinho. Mi ficou sentada, examinando a única mão, ainda a segurar a tesoura. Abriu-a e fechou-a no vazio, com a meia boca a flectir-se num meio-sorriso. Tornou a cortar.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Carolina Fidalgo
Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.







