Pedrinho

de Nuno Rosalino

 

Ele encosta-lhe o ouvido à barriga, como se escutasse um búzio. 

Ela não sabe como contar-lhe que, no ventre, já não sente vida.

Ele fala de ensinar o menino — queria tanto um que já o batizara — a jogar à bola. A pescar. A fazer-se ouvir.

Ela não consegue extinguir aquele fantasiar. Quer poupá-lo, enquanto puder, à tristeza que sente. E de noite, no casebre humilde, baixinho para não se ouvir, chora sozinha. E reza para estar enganada.

Contar-lhe-ia quando saísse naturalmente.

Mas o tempo passa.

Na barriga, cresce-lhe apenas um silêncio lapidar.

Calcifica o feto gangrenoso.

Faz do corpo dela cemitério.


SOBRE O AUTOR

Nuno Rosalino

É tradutor e revisor profissional, vadio amador e mestre em Tradução Literária (não-praticante [cédula caducada]).
Vive na Inglaterra com a parceira e o gato, onde magica planos para ser o iconoclasta da diáspora.
Escreve porque não resta mais nada.

Gostas de ler? Aqui, encontras os melhores contos de terror! 

Privacy Preference Center