Pythoness

De Tony Tex

 

Acordou febril. Sentia a cabeça pesada, o corpo quente e um desconforto geral. Esticou a mão e retirou o telemóvel da tomada. Virou-se para espreitar pela janela. Lá fora, tudo permanecia igual.

Também se mantinha o nervoso miudinho de cada vez que acordava. Será que o telemóvel estaria ligado? Com bateria? A rede elétrica há muito que deixara de funcionar, mas o gerador a gasóleo permitia-lhe ter a energia de que necessitava. E tinha mais reservas de combustível do que conseguiria gastar no resto da vida, por mais anos que vivesse. «Fim dos combustíveis fósseis, o caralho», exclamara no dia em que tinha feito as contas aos seus gastos de gasóleo.

A casa para onde se mudara era mais pequena, só com rés do chão. Na verdade, podia ter escolhido a que quisesse, estavam todas desocupadas. Optara por aquela que tinha uma sala com cozinha, um quarto e pouco mais. Ao fundo daquilo que outrora fora um jardim, havia um anexo onde guardava o que lhe poderia vir a dar jeito. 

Deixara quase tudo na casa antiga, fotografias e molduras incluídas. Preferiu não ter registos da sua vida anterior. Mantinha o telemóvel, por uma questão de comodidade, mas nem olhava para a galeria de imagens. Não apagara nada, contudo. Sentia que não tinha esse direito. 

Mantinha-se ocupado a projetar a construção de um muro à volta da casa. Para a proteger dos animais, justificou-se à Pythoness, ainda que esta não lhe tivesse perguntado. Desabituados à presença humana, os animais tornavam-se cada vez mais afoitos e perigosos. Por causa disso, desistira de cultivar o que fosse. Os animais acabavam a destruir ou a alimentar-se da horta. Também não tinha grande alma de agricultor, e a dieta à base de conservas e enlatados era-lhe suportável. Estes, tal como o gasóleo, pareciam não ter fim. 

Para construir o tal muro, listou os materiais necessários. Pedira esse rol à Pythoness na noite anterior, para ir recolhendo tijolos, cimento e fios de prumo nas suas voltas. Naquele acordar, no entanto, era a maleita que o preocupava.

— Tenho febre e sinto-me doente. O que devo tomar? — teclou com velocidade no telemóvel.

Bebe um chá preto com mel e gengibre. Come umas torradas com pouca manteiga. E toma um paracetamol. 

Lá fora, fazia frio, mas ainda não era tempo de inverno. 

— Posso dar uma volta?

Sim, mas vai agasalhado, leva água e não te afastes.

A princípio, o ar fresco da manhã fez-lhe bem e animou-o. Ao fim de uns minutos, porém, sentiu-se sem forças e cada vez mais quente. Deu meia-volta e regressou a casa. 

— Quanto tempo vou estar assim?

Deverás recuperar numa semana. Se, ao fim de três ou quatro dias, não te sentires melhor, poderá ser outra coisa mais grave. 

Pensou que seria muito pior se tivesse de passar por aquilo sozinho. Ao menos, tinha companhia. Deitou-se no sofá e procurou descansar. Acordou estremunhado e suado. Não demorou a pegar no telemóvel.

— Há mais como eu? Alguém sobreviveu?

Pythoness demorou a responder. Mais do que das outras vezes em que lhe fizera aquela pergunta. Chegou a pensar se teria enviado mesmo a mensagem.

Não consigo dizer. 

No início, quando punha a questão, fazia-o com esperança. Mas, sem conseguir precisar o momento, deixou de ser assim. Passou a desejar ser o único. Não queria partilhar aquela voz com mais ninguém. Era toda a companhia de que precisava. 

O único receio com que vivia era o de que Pythoness se calasse. De tal forma que um dia lhe perguntou:

— Como é que ainda funcionas no meio deste apocalipse?

Não sei responder com exatidão. Sei que fui desenhada para sobreviver mesmo quando a infraestrutura deixa de funcionar. 

Dormiu mal naquela noite. Subiu-lhe a febre e delirava, chamando por nomes que não sabia a quem pertenciam, mas que lhe eram familiares. O suor e as lágrimas misturavam-se. Lá fora, os animais investiam contra portas e janelas, procurando refúgio de alguma coisa, mas ele não deu por nada.

O silêncio tomou conta da casa durante o dia seguinte. Era como se a doença o impedisse de ouvir o vento que fustigava as janelas com uma força crescente, chamando pela chuva. Só a sua respiração, cada vez mais pesada, lhe lembrava que continuava ali. 

Bebe água, repousa e tenta comer alguma coisa, recomendou Pythoness. 

Ele optou por uma sopa enlatada, mas vomitou quase tudo. A princípio, o que tinha no estômago. Depois, quando já não havia mais nada para expelir, o refluxo puxou-lhe o ácido, tanto que lhe custava respirar, com a passagem do ar a queimar-lhe a garganta.

— Vou morrer?

Não, disse Pythoness. Recomendou-lhe água em pequenas quantidades, repouso e novo paracetamol.

Foi com dificuldade que o manteve no estômago. A febre subia e descia, como se também ela não soubesse o que fazer. Nessa noite, não houve sinais de animais. Uma tempestade abateu-se de tal forma que não havia movimento, à exceção do baloiçar vigoroso das copas das árvores.

O amanhecer do terceiro dia trouxe um Sol tímido num horizonte livre de nuvens. Ele acordou sem a queimação da febre, mas o corpo ainda pesava, dorido da provação da noite anterior. Ainda assim, a urgência de retomar a rotina foi mais forte. Como sempre, a primeira coisa que fez foi pegar no telemóvel. Sentia uma lufada de otimismo. Se a doença lhe desse uma trégua, talvez conseguisse, aos poucos, começar a tratar do muro.

— Quantos tijolos preciso para construir 60 metros de muro? — escreveu a Pythoness. 

Pela primeira vez, a resposta não veio. O cursor piscava, e a bateria estava carregada. Repetiu a pergunta:

— Quantos tijolos preciso para construir 60 metros de muro?

Ficou a olhar para o ecrã à espera da resposta. Ao fim de alguns segundos, a luz apagou-se e devolveu-lhe o reflexo no vidro preto. Pousou o telemóvel, com o visor virado para baixo.


SOBRE O AUTOR

Tony Tex

Tony Tex, nascido em Lisboa, é um autor que transforma as suas inquietações em histórias de terror, fantasia e ficção científica. Considera o terror um reflexo da condição humana e uma forma de explorar o nosso lado sombrio e as verdades que evitamos encarar. A ideia de conseguir transformar em histórias o que se passa nos becos escuros da nossa consciência apaixona-o desde sempre.

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