Regras
de Ilana Sievert
Os dias começam sempre do mesmo modo.
Silêncio, escuridão e um autocarro para apanhar às quatro da madrugada.
O caminho da casa dos meus pais até à paragem é feito sempre a cumprir as minhas regras: não levar nenhuma lanterna, porque não se sabe o que pode estar à espreita no milharal; não olhar para trás; e nunca prestar atenção aos chamamentos da mata.
Ninguém mais as seguia, mas algo me dizia que era melhor assim.
A rotina mudava apenas com os humores da Lua. Consoante a fase, a estrada podia estar mais ou menos iluminada, facilitando a caminhada por entre a neblina.
Outra coisa que me passou a chamar a atenção foi o facto de o meu cão, o Logan, começar a ladrar, mesmo quando eu já tinha atravessado os limites da propriedade. Os latidos, a princípio, pareciam aleatórios, mas, depois de semanas, reparei num padrão. O Logan latia todas as quintas-feiras, pouco antes das quatro da manhã.
Após notar esse pormenor, tive a certeza de que não estava a imaginar coisas. O medo do escuro costuma pregar-nos partidas, mas ali havia algo mais.
Silêncio. Escuridão. Autocarro.
Silêncio. Escuridão. Latidos. Autocarro.
O padrão repetia-se como algo sagrado, até se tornar no novo normal.
A rotina pesada de estudar e trabalhar, somada às poucas horas de sono, era uma combinação difícil de manter. Mesmo com dezasseis anos, a energia tende a acabar.
Premir o botão de adiar o despertador já era quase um hábito, mais por necessidade do que por desleixo, e os dias próximos do fim de semana eram os piores; o corpo implorava descanso. As manhãs, como consequência, perderam o silêncio, substituído pelos meus passos apressados entre o milharal.
Assim, mais um dia começava cinco minutos mais tarde, com o pequeno-almoço engolido sem mastigar, com o cabelo preso num rabo-de-cavalo enquanto abria o portão de casa. Não era grave. Se corresse um pouco, chegaria antes do autocarro. O motorista já me conhecia e certamente esperaria por mim.
Corri pela estrada mal iluminada pela Lua minguante e parei abruptamente. O meu cão estava no meio da estrada, a rosnar-me. A cada passo que dava na direção dele, o rosnado aumentava, com os caninos afiados a cintilar.
— Que foi, Lolo? Sou eu.
Por um segundo, o Logan inclinou a cabeça e abanou a cauda. No seguinte, voltou a rosnar, com o pelo da nuca eriçado, de rabo encolhido entre as pernas.
O Logan avançou. Começou a correr na minha direção. Saltou.
Pus as mãos à frente do corpo para travar o impacto, ao mesmo tempo que fechei os olhos. Prendi a respiração. Nada.
Abri os olhos e o Logan já não estava à minha frente.
O latido, nas minhas costas, quase me arrancou a alma. Espreitei por cima do ombro, sem me atrever a olhar completamente para trás. O Logan estava atrás de mim, a rosnar para o escuro. Lembrei‑me das regras e desatei a correr, como se a minha vida dependesse de entrar no autocarro.
Na semana seguinte, faltou-me a coragem para encarar o caminho. Implorei ao meu pai que me levasse de carro até à paragem. Ele fê‑lo, com o pior dos humores, fazendo‑me prometer que aquela seria a única e última vez que eu deixava a imaginação assustar‑me daquele modo.
Depois desse episódio, aprendi a não premir o botão para adiar o despertador. Voltei a ser pontual, ouvindo os latidos nas quintas-feiras seguintes quando já estava fora da propriedade, prestes a embarcar.
Numa noite, ao jantar, a minha mãe disse‑me que o Logan tinha tido um acidente: pisou numa armadilha deixada por algum caçador e morreu no local. Sepultaram-no numa clareira, ao lado do milharal, com os corvos a lamentarem a sua partida.
Na quinta-feira seguinte, ainda desgostosa, tentei convencer o meu pai a levar‑me. Eu sabia que ele ia dizer que não, mas ouvi-lo doeu à mesma. Esperava que ele se importasse mais.
Sem opção, saí a correr e cruzei os limites das terras antes do habitual, fazendo o mesmo nas semanas seguintes: cinco minutos mais cedo, para a minha consciência ficar tranquila.
Continuei a seguir as regras, acrescentando-lhes o novo horário: não levar lanterna; não olhar para trás; nunca atender aos chamamentos da mata; sair cinco minutos antes.
Os dias foram passando e, aos poucos, permiti‑me a esquecer o episódio com o meu cão a rosnar. As palavras do meu pai faziam sentido. Não havia nada ali; apenas a minha imaginação. Assim, numa quinta‑feira, exausta como estava, decidi por carregar no botão para adiar o despertador não uma, mas duas vezes. Saí de casa sete minutos depois da hora.
Corri pela penumbra, com a neblina a rodopiar ao meu redor e a brisa gelada a assobiar pelo milharal. Faltavam alguns metros para sair dos limites quando o assobio cessou. Os corvos calaram o seu lamento. A névoa espessa parecia agarrar-se à minha pele arrepiada. Uma nuvem escura cobriu a Lua e, por um momento, o meu mundo reduziu‑se ao bater do coração.
— Elianaaaaa.
Engoli em seco. Os meus pés não se atreviam a mover‑se. Um hálito quente fez cócegas no meu pescoço, arrepiando os pelos da nuca.
— Porque é que estás a correr de mim?
Fechei os olhos. Forcei o corpo trémulo a continuar parado, a ignorar os dedos gélidos que deslizavam pelo meu braço, para não quebrar as restantes regras.
A buzina do autocarro apitou.
— Eliana, vira-te para mim.
O ronco do motor aproximou‑se. Uma luz cortava as árvores.
— Não!
O meu pedido não foi ouvido.
O autocarro fez a curva e iluminou o meu rosto empalidecido, bem como o que estaria atrás de mim. Assim, sem pensar, olhei para trás, atendendo ao chamamento.
Quatro regras foram quebradas. Quatro segundos bastaram para que o meu sangue banhasse o chão.
Curiosamente, não doeu. Foi mais fácil do que ignorar o despertador.
Agora, anos depois, vivo neste mesmo milharal, a assobiar o nome da rapariga que por aqui corre todas as noites, de ouvidos tapados, com a música a afastar o mal.
Há também postes, agora, a iluminar o caminho. Trataram disso depois da minha partida.
Não importa. Não tenho pressa.
De todas as regras, preciso apenas que ela quebre uma.
SOBRE A AUTORA
Ilana Sievert
Nascida na pacata Pomerode, Ilana Sievert vive atualmente na ensolarada Oeiras, ao lado do marido e das três gatas.
Leitora apaixonada por fantasia e pelo paranormal, decidiu aceitar o desafio de dar voz às suas próprias histórias.
Partilha a sua jornada enquanto autora, bem como o processo de escrita e divulgação da sua obra, através da conta @ivsievert.author. Quando as Memórias Devolvem o Olhar marca a sua estreia na literatura, uma jornada tão assustadora quanto empolgante, que certamente não será a última.







