Relíquias
de Carolina Fidalgo
Chegam em pacotes selados a vácuo. Embrulhados, são como animais cegos e mirrados. Há quem os tire da embalagem e os exiba no parapeito da lareira. Também há quem guarde o seu numa gaveta. Mesmo fechados, é um conforto saber que ali estão, mortos e impotentes. Embora seja possível adquiri-los em lotes de proveniência anónima, a maioria só compra um, por encomenda especial e com origem pré-estipulada.
As mulheres solteiras são as principais consumidoras. Dá-lhes gozo. Compram-nos, não para os usar, mas para não serem usadas. Quando ficam noivas, metem o embrulho ao bolso, dirigem-se ao incinerador de material biológico mais próximo e, discretamente, aliviam-se da posse comprometedora. É uma pena: a extracção não foi barata. Após o despejo, são invadidas por uma mescla de alívio e perda, rainhas vazando o saque dum império arruinado.
Outras afeiçoam-se. Não deitam fora.
Deixam-nos à vista dos maridos. Como ameaça.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Carolina Fidalgo
Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.







