Ritual da Lua Negra

de Lara Fernandes

 

Na aldeia, a procissão surgia ao crepúsculo, pés nus no pó frio. As caretas de cortiça rangiam, cheirando a resina e hálito velho. Segui a avó; a mão ossuda fechou-se no meu pulso. Os sinos chamavam quem não devia ouvir.

No adro, a fogueira arquejava, cuspindo fagulhas. Os cânticos torciam-se como lã molhada a ser espremida. 

Em vez de um animal, trouxeram um boneco de centeio: entranhas de espinhos, boca cosida a fio negro. A lâmina abriu-lhe o ventre seco. O vento engasgou-se. A cinza correu, e o chão estalou como barro antigo a ceder ao sol.

A avó inclinou-se. Cheirava a fumo e hortelã morta. Os olhos vazios não me reconheceram. Empurrou-me, e as caretas viraram-se. As pernas falharam, o estômago subiu. A fogueira rasgou-se num túnel. Atravessei-o a tropeçar.

Ao amanhecer, a aldeia respirava intacta. As caretas dormiam nas arcas. Os sinos morderam-me o som, afinaram-no. Desde então, carrego o ritual nos ossos, à espera da lua que me chamará outra vez.

SOBRE A AUTORA

Lara Fernandes

Lara Fernandes nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, em 1974, uns dias antes do 25 de Abril. Três anos depois, a sua família mudou-se para Portugal, onde tem vivido desde então. Formada em Informática de Gestão, estagiou com uma bolsa em Programação e Multimédia em Coimbra, estabelecendo o início da sua carreira técnica como programadora informática de websites.

A vida de Lara é uma combinação harmoniosa de realização profissional, a paixão pela escrita, o amor pelos animais e o envolvimento familiar.

Já tem algumas publicações em várias coletâneas e revistas. É uma eterna aprendiza, movida pela curiosidade e criatividade. Com dedicação e entusiasmo, procura sempre novos desafios, explorando ideias, histórias e experiências que inspirem e conectem. O olhar atento e a mente aberta refletem o seu espírito inovador.


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