Saciada
de Maria Leonilda Pereira
Querias que te comesse?
Estás magro — vida de copos, mulheres e luxos.
Vieste num baú de madeira, bem fechado, sem enfeites ou pedras preciosas. A terra aprecia ironias.
Roubaste os pobres, escondeste telas e ouro em cofres distantes. Para quê? Olha para ti. Chamavas-lhes investimentos. Eu chamo-lhes peso morto.
Ela, a que chorou no teu funeral, já voltou a dançar. O dinheiro não se enterra — circula.
Aqui, não há discursos finais. Nem exortações ao perdão. Eu, a terra, não preciso de explicações.
Enganaste-te quando pensaste que tudo acabava no caixão. É que nem todos os corpos servem, incapazes de nutrir. Alguns recusam-se a devolver o que nunca receberam.
Tenho critérios.
Tenho memória.
Tenho fome — mas não de ti.
Não és o primeiro que recuso. Há outros como tu, empilhados mais abaixo, no Purgatório, à espera de quem os queira.
Segue. Não me incomodes.
Belzebu aceita tudo.
Eu não.
SOBRE A AUTORA
Maria Leonilda Pereira
Licenciada em Filologia Românica, foi professora de Português do Ensino Secundário. Promoveu a escrita e a leitura, na escola e fora dela, através de oficinas de escrita criativa e leituras encenadas.
Colaborou na antologia anual Olhares da Lua. Publicou Da Minha Janela e A Gargalhada do Medo.
As palavras adoçam-lhe os dias.







