Sermão às Larvas
de Nuno Rosalino
… que, aqui plantado, nem sequer recordo.
Digam-me se sou mais do que uma parangona num jornal amarelo.
…
Este vosso silêncio angustia-me.
Digam-me, filhas desnaturadas, que mal fez este corpo onde cultivei Ovídio, Sócrates, Longino e tantos outros.
Um corpo que procurou apenas significado.
Cuja carne vi macerar na lezíria.
Que vi transformar-se num odre roxo e ceroso onde nadavam as minhas vísceras.
Alimento para vós, pequenos bagos translúcidos que foram, despontando das plantas de arroz que se ensarilharam nos meus ossos.
Elucidem-me: não será maior o crime de quem me condenou?
…
Nem sabem como invejo o vosso acordeonar irrequieto, o bulício que aí vai dentro.
Como um feto que esboça cabeços de carne na barriga da mãe.
O vosso dançar de fruto sumarento à brisa, pulsando carregadas e luzidias ao sol, vergando os caules verdes.
Pergunto-vos, larvas que sois, sangue do meu sangue: que mal fiz eu?
Pergunto-vos, carne da minha carne: porque fui votado a assombrar os meus próprios ossos?
Contem-me se é universal a pena ou afeiçoado o castigo ao criminoso.
Porque não subi ao Céu cristão, aos Campos Elísios? Porque não desci aos enxofres de um desses infernos que inventámos?
Faltou com que pagar o frete a Caronte?
…
Sabem, lembram-me os meus alunos, inúteis e insurretas que sois.
Expliquem-me porque não me leva daqui o vento, incorpóreo que sou.
Digam-me por que razão nem sequer me é permitido espairecer no arrozal.
Como as cegonhas que aqui passam altaneiras.
…
Anseio pelos segredos que a vossa liquefação promete.
Pelo vosso desabrochar.
Quero ver-vos iluminar este campo com a vossa retórica muda.
Quero ver-vos dar à luz, larvas que sois, crisálidas que sereis, prenhes de significado.
Quero ver-vos, bizarras ninfas da lezíria, desembuchar as respostas que me devem.
Quero ver-vos rebentar pela bissetriz. E revelar se todo este tempo foram crisálidas de mim, como de vós crisálida fui.
Dissipem estas dúvidas que me roem.
Devolvam-me um futuro.
…
SOBRE O AUTOR
Nuno Rosalino
É tradutor e revisor profissional, vadio amador e mestre em Tradução Literária (não-praticante [cédula caducada]).
Vive na Inglaterra com a parceira e o gato, onde magica planos para ser o iconoclasta da diáspora.
Escreve porque não resta mais nada.







