Sermão às Larvas

de Nuno Rosalino

 

… que, aqui plantado, nem sequer recordo.

Digam-me se sou mais do que uma parangona num jornal amarelo.

 

 

Este vosso silêncio angustia-me.

Digam-me, filhas desnaturadas, que mal fez este corpo onde cultivei Ovídio, Sócrates, Longino e tantos outros.

Um corpo que procurou apenas significado.

Cuja carne vi macerar na lezíria.

Que vi transformar-se num odre roxo e ceroso onde nadavam as minhas vísceras.

Alimento para vós, pequenos bagos translúcidos que foram, despontando das plantas de arroz que se ensarilharam nos meus ossos.

Elucidem-me: não será maior o crime de quem me condenou?

 

 

Nem sabem como invejo o vosso acordeonar irrequieto, o bulício que aí vai dentro.

Como um feto que esboça cabeços de carne na barriga da mãe.

O vosso dançar de fruto sumarento à brisa, pulsando carregadas e luzidias ao sol, vergando os caules verdes.

Pergunto-vos, larvas que sois, sangue do meu sangue: que mal fiz eu?

Pergunto-vos, carne da minha carne: porque fui votado a assombrar os meus próprios ossos?

Contem-me se é universal a pena ou afeiçoado o castigo ao criminoso.

Porque não subi ao Céu cristão, aos Campos Elísios? Porque não desci aos enxofres de um desses infernos que inventámos?

Faltou com que pagar o frete a Caronte?

 

 

Sabem, lembram-me os meus alunos, inúteis e insurretas que sois.

Expliquem-me porque não me leva daqui o vento, incorpóreo que sou.

Digam-me por que razão nem sequer me é permitido espairecer no arrozal.

Como as cegonhas que aqui passam altaneiras.

 

 

Anseio pelos segredos que a vossa liquefação promete.

Pelo vosso desabrochar.

Quero ver-vos iluminar este campo com a vossa retórica muda.

Quero ver-vos dar à luz, larvas que sois, crisálidas que sereis, prenhes de significado.

Quero ver-vos, bizarras ninfas da lezíria, desembuchar as respostas que me devem.

Quero ver-vos rebentar pela bissetriz. E revelar se todo este tempo foram crisálidas de mim, como de vós crisálida fui.

Dissipem estas dúvidas que me roem.

Devolvam-me um futuro.

 

SOBRE O AUTOR

Nuno Rosalino

É tradutor e revisor profissional, vadio amador e mestre em Tradução Literária (não-praticante [cédula caducada]).
Vive na Inglaterra com a parceira e o gato, onde magica planos para ser o iconoclasta da diáspora.
Escreve porque não resta mais nada.

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