Uma Ranhura para o Paraíso

de Alan R. Montenegro

 

Sob o tecto da minha sala de estar, paira uma ranhura para o Paraíso.

Dei por ela uma certa noite, sozinho, embriagado. Entre momentos de fugaz lucidez, materializou-se. Não podia ter mais de uns centímetros de largura, mas dela transbordava uma intensa e indecifrável luz, e uma voz. Aquela voz. Suave e gentil, a assegurar-me de que o que estava para lá daquela ranhura era o Paraíso, indiferente ao terror que me provocava — que provocaria a qualquer homem que sofresse a sua presença.

Um dia, cambaleando pela sala de estar, ao olhar para a ranhura como tinha feito todos os dias desde que a vira pela primeira vez, senti a sua luz um pouco mais intensa, e a sua voz, constante e aliciante, a chamar-me com um pouco mais de vontade. Decidi-me a espreitar, finalmente, após tanto o temer, após tanto o adiar.

Arrastei uma cadeira para o centro da sala, onde a ranhura estava. Subi para cima da cadeira e fiquei com a abertura ao nível dos olhos. Cegado pela luz que dela saía, hipnotizado por aquela voz, sentia agora também a amena e reconfortante brisa que emanava do interior.

Aproximei as mãos, que erguera para tapar a claridade que ainda me atordoava, tacteando o rebordo com os dedos. Era fina, mas dei por mim a conseguir agarrá-la firmemente, com uma mão de cada lado. Num fervor crescente, abri a ranhura, dissipando o meu medo e a encandeante luz, agora substituída pela paisagem que dentro dela se encontrava.

Do outro lado, vertia um mar de idílico dourado, como vertiam também lágrimas dos meus olhos. O tão radiante pôr-do-sol banhava um trigal que parecia sem fim, suavemente dançando ao sabor da brisa que o acariciava, fazendo de todo o campo uma cama, quente, aconchegante, onde até a mais pesada das almas se sentiria leve. Com os olhos perdidos no azul, cada fardo, cada pecado, se dissiparia, como as nuvens que passavam por cima.

E, ao longe, vinha ela. A dona daquela voz que chamava por mim. A sua silhueta, inicialmente apenas um ponto na distância, clarificava-se com cada passo. Via os seus longos cabelos melíferos, mergulhando e brotando dos cereais que a rodeavam, o seu sorriso em lábios cor de pêssego, os olhos verdes como uma serpente. Caminhava na minha direcção, com a sua terna entoação a clamar por mim, para que me aproximasse mais, como ela se aproximava. A ranhura era pequena, mas, com as mãos firmemente agarradas aos contornos, levei a minha face à abertura. Com algum esforço, e alguma coragem, consegui que esta trespassasse a fronteira entre os dois mundos.

Passo ante passo, a figura acercava-se, com a sua voz a crescer. Mais nada conseguia ouvir, em mais nada conseguia pensar. A figura estava agora diante de mim, de braços esticados para me alcançar, a pedir-me que me entregasse ao seu abraço. E como eu o desejava. 

A minha cara era agora embalada nas suas mãos, e eu esforçava-me para me aproximar, nem que fosse só mais um pouco. Queria apenas encostar-me a ela e fechar os olhos. Deitar-me no seu peito para poder descansar, para poder esquecer, perdido naquele calor misericordioso que seca qualquer lágrima, que apaga qualquer passado.

E então, a cadeira caiu. E eu estava, por fim, no Paraíso.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

Alan R. Montenegro

Alan Montenegro nasceu no Porto a 24 de julho de 1997, e aí viveu desde sempre.

Concluiu o mestrado em Engenharia Industrial e Gestão pela Faculdade Engenharia da Universidade do Porto. As suas paixões são muitas, mas, entre pequenos contos e versos soltos, toda a sua vida escreveu e foi fascinado pelo poder das palavras.

Na sua estante, encontram-se variadíssimos estilos e nacionalidades de autores que o acompanharam na sua jornada literária, sendo Oscar Wilde e Milan Kundera dois dos mais influentes.

Vitor e Vitória é a sua primeira obra publicada.

Gostas de ler? Aqui, encontras os melhores contos de terror! 

Privacy Preference Center