Verdade e Consequência

de Joana Rocha

 

Pela segunda vez, o carro resvalou para a berma. Não sabia se era cansaço ou se era a sombra dentro dela que o puxava para fora da estrada.

O breu, no entanto, não estava apenas no exterior; respirava ao seu lado, no lugar do morto. Fechou as pálpebras, várias vezes, mais tempo do que seria necessário. Depois, abriu-as, voltando a ver o caminho ladeado por árvores.

Saltou no assento ao ouvir a voz sintética do GPS a indicar-lhe que virasse à esquerda. Obedeceu e encontrou uma ruela sombria que se estendia até um ponto de luz.

À medida que se aproximava, a casa ia-se definindo, pequena, torta, como se tivesse crescido sem consentimento.

Estacionou e saiu do veículo. Esticou as pernas, deu pequenos saltos para ativar a circulação. Pegou na mala e no papel dobrado em várias partes, para caber na mão. À volta, não havia nada. Só o som das corujas e das sombras que davam forma ao arvoredo.

Um arrepio atravessou-lhe a pele. Mesmo assim, subiu os degraus de pedra que davam acesso à entrada. Preparava-se para bater quando ouviu a sua voz, dentro de si, a gritar para que não o fizesse. Segurou-se à parede esfarelada, olhou para o carro, depois para a porta novamente. Respirou fundo e bateu.

Ouviu uns chinelos a arrastar. O postigo abriu-se, uns olhos fundos espreitavam.

— Diga?

— Tenho uma marcação.

— Nome?

— Patrícia…

— Veio cedo. Entre.

A mulher corpulenta abriu-lhe a porta. Depois de a percorrer com o olhar, fez um estalido com a língua e virou costas, obrigando-a a segui-la.

A meio do corredor, que parecia ter sido construído à medida das ancas dela, parou.

— Trouxe o dinheiro? — perguntou, com voz seca.

Patrícia vasculhou a mala e entregou-lhe um envelope. A mulher abriu-o, agarrou no maço de notas, lambeu o indicador e contou-as. Por fim, pediu-lhe que a seguisse. Desceram escadas que desembocavam num corredor pouco iluminado, no final do qual havia uma porta. A mulher abriu-a. A sala era estreita, o ar era pesado. De cada lado, havia cadeiras e mulheres sentadas nelas.

Cerrou a mão que segurava o papel.

Rostos baços, olhos apagados. As mãos caíam-lhes no colo. Pensou, de novo, em voltar para trás. A voz seca indicou-lhe uma cadeira.

Entrou, evitando os rostos que se curvavam à sua passagem. Imaginou que sentiriam o mesmo nó no estômago, a mesma angústia a pender do peito.

Tinha feito tudo dentro da lei, para agora estar ali como uma criminosa, por ter passado tempo de mais. Observou a mulher que guardava a porta. Parecia um general, de porte ereto. Vigiava-as enquanto limpava os ouvidos com um cotonete. 

Desculpe, mas não posso ajudar. Mesmo que tenha sido forçada, o que carrega é um presente de Deus, que não fez nada de errado. Aconselho a que, no futuro, pense antes de vestir esse tipo de roupa. O corpo de Patrícia estremeceu de raiva ao lembrar-se das palavras da médica. Lembrou-se também da reação: de a ter chamado de puta beata, de ter saído da sala a gritar — para todas as pacientes ouvirem — que ela não devia estar ali a dar cabo da vida das mulheres. Voltou a sentir o arrepio.

— Senhorita Cristina.

As mulheres entreolharam-se. Uma delas levantou-se.

Com os olhos no telemóvel, escondida dentro dos cabelos, como fazia quando, em pequena, brincava ao jogo do invisível, ouviu o primeiro grito. O coração disparou. Por uns segundos, pousou as mãos no ventre, como se o protegesse; instantes depois, levantou-as com o estômago contraído.

Algum tempo passou. Já sentia a dor de tanto pressionar as unhas contra a carne, sempre que gritavam, até que o seu nome ecoou na sala.

Foi atrás da mulher sentinela, que parou várias vezes à sua espera, deixando-a frente a uma porta aberta.

Quando entrou no cubículo, teve de pôr uma mão sobre os olhos para afastar a luz branca. Havia panos empapados de vermelho esquecidos no chão. Tesouras e facas sobre a mesa. Um velho frigorífico zumbia, como um inseto preso.

Sentou-se na marquesa.

O cheiro denso, metálico, colava-se-lhe à garganta, quando ouviu o estrondo da porta a fechar. O coração acelerou.

Em frente, uma mulher alta, de bata salpicada, caminhava na sua direção. O rosto que se aproximava ganhava contornos familiares.

A médica puxou um banco, sentando-se perto o suficiente para lhe ouvir a respiração, dissipando qualquer dúvida sobre a sua identidade.

Patrícia tentou erguer-se. O corpo não reagia.

— Olá, minha querida — sorriu a médica. — Ainda me lembro de si. Achava que se livrava desse presente de Deus se dissesse que tinha sido violada? Devia ter ficado calada naquele dia.

Com o pânico a crescer, Patrícia tentou de novo levantar-se da marquesa, mas a médica segurou-a. Patrícia gritou como se uma faca lhe rasgasse a carne. Em resposta, a mulher corpulenta apareceu e imobilizou-a. A médica ordenou que a levasse para a cave.

Desceram por umas escadas escuras, com a Patrícia a gritar e a tentar soltar-se, até que a mulher acendeu a luz. Viu as paredes gélidas e sem janelas. Um buraco com uma cama, onde a mulher a amarrou.

— Fica aqui até o bebé estar pronto para nascer. Aproveite o tempo. — E esboçou um quase sorriso.

Patrícia olhou em volta, assustada, e para a porta que a mulher trancara. Encolheu-se contra as grades da cama, de pulsos presos, deixando cair o papel com a morada daquele lugar, entregue por outra paciente na sala de espera do hospital. 

A respiração tornou-se curta, trémula. Procurou, em seu redor, qualquer indício de que enlouquecera. 

Não o encontrou.


SOBRE A AUTORA

Joana Rocha

Nasceu na ilha Terceira e vive em Lisboa. É licenciada em Serviço Social e pós-graduada em Migrações e em Mediação Familiar. Exerce funções de assistente social, coordenadora e supervisora, numa ONG na área da Saúde.

Autora de diversos contos publicados em antologias e em revistas literárias. Em 2025, o conto «Será morrer pior do que estar morto?» foi selecionado para integrar a Antologia Desas/sossego, publicada pelo Grupo Editorial Divergência. Foi distinguida com duas menções honrosas: no Prémio Literário Luís Vilaça, em 2023, e no Concurso Literário do Município de Palmela, em 2024.

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