Crítica a «Os Vampiros», de Filipe Melo e Juan Cavia
Inspirado em eventos da Guerra Colonial Portuguesa, que é, por si só, sangrenta o suficiente para uma obra de terror.
Caso não conheçam a música, recomendo que oiçam «Os Vampiros» de Zeca Afonso antes de se imergirem nesta obra e que deixem que a mesma acompanhe a vossa leitura.
Quando escolhi ler este livro e o adquiri, confesso que ignorei por completo a sinopse e assumi que representasse uma versão mais rocambolesca e «tuga» de vampiros. Por esse motivo, fiquei genuinamente surpreendida quando me apercebi de que a história decorre durante a Guerra Colonial Portuguesa, um evento histórico em relação ao qual nunca tive particular interesse, maioritariamente porque sempre achei que, nas aulas de História, tornavam este período numa grande salganhada.
Apesar disto, rapidamente concluí que não precisava de saber muito sobre aquela Guerra para conseguir acompanhar a história ou entranhar-me no seu significado.
Os Vampiros, título inspirado na música de mesmo nome de Zeca Afonso, é uma banda desenhada brutal que critica simultaneamente a Guerra Colonial e a capacidade que o humano tem para ser o monstro das suas histórias, algo bastante cliché, admito, mas difícil de ignorar.
Inevitavelmente sangrenta e com imensos momentos de moralidade questionável, Filipe Melo e Juan Cavia criam um ambiente tenso desde a primeira página, deixando-nos a antecipar uns vampiros que tanto têm de literal como de metafórico.
A última tira da banda desenhada tem um significado extremamente complexo, que me deixou presa à página durante largos segundos, ainda que o desenho em si seja simples na sua composição. Foi talvez o momento em que «eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada» de Zeca Afonso troou na minha mente com mais intensidade, e me levou a pensar nas poucas histórias que conheço de pessoas que estiveram envolvidas na Guerra Colonial — e como nada ganharam além de morte e trauma (morte e trauma que é partilhado por vários povos e países).
O final da obra tem uma breve nota histórica que ajuda a enquadrar o que foi lido (ainda que recomende mesmo ler apenas no final), mas aproveito para esclarecer que, em 2023, o ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa desclassificou os últimos documentos da Guerra Colonial, algo que ainda não havia acontecido quando esta obra foi publicada em 2021.
Apesar da crueza e brutalidade da banda desenhada, é uma obra que se lê facilmente num par de horas, especialmente considerando que o foco foi claramente colocado nas imagens, sendo os diálogos até mais espaçados do que o habitual.
Mas para que precisamos nós de palavras quando temos aquelas tiras?
Os Vampiros, publicado pela Penguin Random House, encontra-se disponível nos locais habituais, sendo uma excelente adição para a vossa «Hora H» na próxima Feira do Livro de Lisboa.
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Laura Silva
Apaixonada por histórias desde 1992, é escritora nas horas vagas e pasteleira aos fins-de-semana. O gosto pela leitura deu muito jeito para a licenciatura em Direito, mas agora é constantemente abordada por amigos e familiares para consultoria jurídica gratuita. Extremamente traumatizada em criança pelo Cadeirudo, acabou por aprender a gostar de todas as facetas da ficção especulativa, que hoje se revela o seu género favorito.





