Crítica ao livro «Coisas Ruins», de João Zamith
Vencedor do 3.º Prémio Ataegina na categoria de Livro Publicado.
Um livro de folk horror passado no norte de Portugal, com fantasmas, crenças populares, bruxarias e, claro, muitos segredos.
Coisas Ruins, romance de estreia de João Zamith, foi publicado em maio de 2025 e, passado menos de um ano, recebeu o Prémio Ataegina na categoria de Livro Publicado.
Não se enganem com as classificações que surgem nos sites de compra de livros, onde Coisas Ruins aparece como «Romance» ou como «Policial». Trata-se, sim, de um livro de terror que se aproxima de um «terror da terrinha» muito específico da cultura portuguesa e que junta fantasmas, religião, crenças populares e muito da vida do norte do país.
A história começa com a morte de Henrique Viaforte, patriarca da família Viaforte, uma família influente, rica e reconhecida. Pouco depois, outros membros da família começam a falar de um ser todo branco, sem cara, que os visita. A história divide-se entre o presente e o passado, quase 20 anos antes, e dá-nos diferentes perspetivas sobre a vida e escolhas de várias personagens. É uma leitura que nos prende e que nos faz querer saber o que se passa, o que é aquele ser e por que motivo anda atrás daquela família.
A narrativa não tem um ritmo muito rápido, o que nos faz entrar ainda mais na vida das personagens, não estando apenas a correr atrás do mistério. Os saltos ao passado podem, por vezes, parecer que se afastam da narrativa principal — ainda por cima por serem centrados numa das personagens menos agradáveis, Ricardo —, mas tudo acaba por ligar-se no final, e de formas que não conseguiríamos prever.
Algo muito interessante nesta história é o facto de conseguirmos identificar muito da cultura por detrás das superstições e da forma de estar destas personagens. Conseguimos quase ouvir sotaques específicos nas suas falas, bem como diferenças geracionais na forma como cada um fala.
É uma narrativa cheia de fantasmas, bruxarias, almas penadas, mezinhas e tradições, perfeita para quem gosta de folk horror com foco nas personagens, mistério e (talvez?) casas assombradas, que coloca no seu centro uma luta constante entre as mais variadas crenças.
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Madalena Feliciano Santos
Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.





