Crítica ao livro «Henriqueta»

Um livro escrito em 1877 por A. J. Duarte Júnior.

Henriqueta ou Uma Heroína do Século XIX pode ser considerado um dos primeiros romances góticos portugueses e regressa ao mercado português com uma nova edição.

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Madalena Feliciano Santos

Henriqueta ou Uma Heroína do Século XIX foi reeditado em julho de 2025 pela Barca, chancela de terror da Vírgula d’Interrogação, para fazer parte de uma coleção de clássicos que conta já com Carmilla. Este texto, escrito originalmente em 1877, conta a história verídica de uma mulher portuense, Henriqueta Emília Conceição, prostituta e líder de quadrilha que se tornou mito popular, e pode até considerar-se como um dos primeiros romances góticos portugueses.

Tal como nos diz o título, a história centra-se em Henriqueta e tem duas linhas narrativas principais: a história dela e de Etelvina, uma rapariga à qual Henriqueta prometeu a maior felicidade se esta fosse viver com ela, e a história de um fidalgo que paga a Henriqueta para raptar a mulher que ama. É entre estas duas linhas que a história se vai desenvolvendo, mostrando os dois lados desta personagem. Como boa história gótica do século XIX, podemos não só esperar drama que aumenta à medida que a narrativa avança como também uma boa dose de crime, de raptos, de absurdo, de sentimentos levados ao extremo, de casos amorosos proibidos, surpresas familiares, histórias de assombrações e menções a fantasmas. E, quando escrevo «drama» e «extremo», pensem em Pedro e Inês, mas lésbico, e mais não digo. Mas encontramos também um quê de cómico em várias passagens, principalmente quando lemos sobre os tão famosos «larápios» de Henriqueta, que nos dão acesso a uma narrativa com personagens bastante diferentes entre si.

É interessante como a história se baseia em pessoas reais e como no posfácio de Francisco Miguel Araújo e Cidália Dinis podemos aprender mais sobre os registos que existem sobre Henriqueta, como esta foi transportada para o mundo literário e como, consequentemente, ganhou o estatuto de mito popular.

Claro que não posso deixar de referir uma das coisas mais evidentes desta nova edição: a forma como o texto é apresentado. Os diferentes tamanhos de letra e configurações de palavras e frases dão-nos uma experiência diferente da que estamos habituados. Senti alguma dificuldade no início porque, ao virar a página, me distraía com as diferentes fontes, mas não demorei muito a habituar-me e a sentir que estas características adicionavam à experiência de leitura ao destacar certas passagens. Além disso, as ilustrações complementam muito bem a história, enquadrando-se dentro da marca dos clássicos publicados por esta chancela.


É uma história que nos prende do início ao fim, um clássico de terror português que não se podia deixar esquecido.



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Madalena Feliciano Santos

Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.

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