Crítica ao livro «Levanta-me das Águas Profundas»
Um livro único pela forma como liga o terror ao lirismo poético.
No primeiro livro de Luiza Nilo Nunes, acompanhamos uma história construída por várias linhas narrativas e temas sensíveis e duros de ler.
Levanta-me das Águas Profundas é um livro curto escrito por Luiza Nilo Nunes, autora que conta com vários poemas publicados em revistas e antologias nacionais e internacionais e que se aventura, pela primeira vez, na publicação de um livro de sua autoria, mas que não é, na definição comumente utilizada do termo, um livro de poesia.
A principal característica deste livro é que parece ter sido escrito dando uma grande ênfase ao lirismo de toda a prosa. O lugar de cada palavra parece ter sido escolhido com grande cuidado. No entanto, apesar de o lirismo poder levar muitas pessoas a pensar numa escrita bonita e elegante, é aqui que entra o lado do terror. Os temas abordados — de abuso, de violência doméstica, da quebra da pureza e inocência de raparigas muito jovens — estão refletidos no texto e não são camuflados por palavras e expressões «mais belas» ou «mais elevadas», mas sim evidenciados pela forma como a autora os consegue articular. É duro de ler. É, também, uma história com muitas referências religiosas, principalmente na forma como é utilizada para descrever as mulheres desde que nascem e na forma como, à medida que vão crescendo, se começa a pensar no que pode acontecer à sua suposta pureza.
«O casarão arqueja e arfa nos seus podres alicerces, regurgita pelos gatos que enterrámos nos quintais, pelos fantasmas anacrónicos de lírios e lençóis, pelos retratos que apodrecem como flores ressequidas entre as páginas seladas desses álbuns de família.» (p. 66)
Estamos perante uma narrativa composta de fragmentos de histórias que se acabam por ligar no final. É vago, eu sei, mas é daqueles livros que são mais sobre a experiência que temos ao lê-lo e sobre a sensação que fica connosco depois de o acabarmos. Sinto que o objetivo é mesmo dar mais destaque ao lirismo e, a partir daí, tocar nestes temas de uma forma diferente de tudo o que já foi feito.
É um bom livro para quem gosta de terror e procura algo diferente, não tão focado no enredo, e para fãs de poesia que gostavam de pôr um pezinho no terror. E, claro, para quem gostaria de conhecer novos autores dentro destes géneros.
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Madalena Feliciano Santos
Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.





