O Turno da Madrugada
À Marta calhou-lhe o turno da madrugada no primeiro sábado do Curtas Festival do Imaxinario.
Não protestou. Levava anos a limpar edifícios públicos e sabia que havia trabalhos que ninguém queria. O que estranhou foi a ordem: naquela noite não devia limpar as salas nem as casas de banho, apenas os corredores e os acessos. Nada mais.
— Não entres nas salas — disse-lhe o encarregado —. Aí já se encarregam outros.
Não perguntou quem.
O Salão García cheirava de forma distinta à noite. Não era sujidade nem produto de limpeza. Era um cheiro velho, húmido, como de madeira que nunca acaba de secar por completo. Cada vez que passava a esfregona, a água escurecia antes do esperado, como se o chão devolvesse algo que guardava há muito tempo.
No corredor lateral, notou a primeira anomalia.
Não foi um ruído, mas uma pressão leve, contínua, que lhe subia pelos pés e lhe ficava no peito, marcando um ritmo lento. Marta deteve-se um momento, com a esfregona apoiada no balde. Pensou num gerador, numa instalação antiga, numa avaria menor. Pensou no que sempre funciona para continuar a trabalhar.
Continuou.
As luzes do corredor não se apagaram, mas perderam intensidade durante um segundo, como se alguém respirasse fundo dentro do edifício. Marta não levantou a vista. Aprendera há muito tempo que olhar demasiado costuma complicar as coisas.
Na porta de uma das salas, o balde de limpeza estava deslocado.
Marta estava segura de o ter deixado bem encostado à parede. Aproximou-se, colocou-o no sítio e, sem saber porquê, apoiou a mão na porta.
Retirou-a de imediato.
Não estava quente de uma maneira normal. Era uma temperatura irregular, sustentada, como se do outro lado houvesse algo vivo, a respirar muito devagar, a ajustar-se ao espaço.
Deu um passo atrás.
De dentro chegou um som abafado, semelhante a um murmúrio coletivo. Não vozes. Algo mais fundo. Algo que não precisava de palavras nem de intenção clara.
Marta pegou no carro e continuou a trabalhar.
Não olhou para trás. Fizera da disciplina uma forma de proteção. Há coisas — pensava — que funcionam melhor se se ignorarem com método.
Ao terminar o turno, no balneário, encontrou restos nas bainhas das calças.
Não pó. Não sujidade habitual. Grãos finos, húmidos, colados ao tecido, impossíveis de explicar num edifício fechado.
Limpou-os no lavatório sem se deter a pensar demasiado.
A água demorou mais do que o normal a descer pelo ralo.
Ao sair, olhou para o relógio. Eram cinco e dezasseis. O edifício estava em silêncio, mas não completamente vazio. Marta não soube explicar essa sensação, apenas a anotou mentalmente, como fazia com outras coisas.
No dia seguinte, o encarregado perguntou-lhe se tudo tinha corrido bem.
— Sim — respondeu —. Tudo tranquilo.
Não lhe contou que, desde aquela noite, quando dorme, sonha com um corredor interminável, com um chão que parece ceder sob os pés e com uma porta morna que alguém empurra de dentro, com paciência.
Tampouco lhe contou que, em algumas madrugadas, ouve na sua própria casa um som familiar, abafado, como um projetor distante a pôr-se em marcha sem ordem nenhuma.
E que então, sem pensar, se levanta da cama e aguarda.
Como se ainda estivesse de serviço.
SOBRE OS AUTORES
Manuel Losada
(Pontevedra, 1982) foi alcunhado pela crítica e pelos leitores como o «Stephen King de Arousa». A sua capacidade para gerar tensão e atmosferas opressivas consolidou-o como uma das vozes mais potentes da narrativa de mistério. Com mais de 400 000 cópias vendidas do seu êxito A fábrica do esquecemento, o seu estilo viciante posiciona-o como o narrador ideal para enriquecer o universo fantástico do Curtas Festival do Imaxinario.
Santipérez
(Madrid, 1970) é um mestre da banda desenhada de terror cuja trajetória começou nos anos 90 na mítica revista Creepy. Com um estilo meticuloso e detalhista que bebe de influências como Bernie Wrightson, é uma referência internacional com obras como Various Horror Visions ou El Taxidermista. A sua passagem pelo Curtas Festival do Imaxinario em 2025 demonstrou a sua capacidade para criar mundos visuais hipnóticos, convertendo-o no aliado perfeito para a narrativa de Losada.





