Entrevista à escritora Liliana Duarte Pereira, autora publicada em três antologias de terror

«É terror, não é para ser simpática com ninguém»

 

Depois da sua estreia na antologia Sangue Novo em 2021, com o conto «O Manicómio das Mães», a autora Liliana Duarte Pereira integra mais duas antologias lançadas em 2022: Sangue, da Editorial Divergência, e Rua Bruxedo, da Imaginauta. Abraçou, sem ponta de dúvida, o terror em português como escritora e como fã, e tudo terá começado com uma oficina de escrita criativa onde o género era não só bem-vindo como incentivado: Escrever Terror.

De Sandra Henriques

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Como é que chegas ao terror como fã, antes de seres escritora neste género?

Sempre fui fã de terror. É o meu género preferido. [Se tiver de escolher] entre terror e comédia, o terror é sempre a minha preferência. Comecei a escrever e a conhecer autores de terror quando conheci o Pedro [Lucas Martins], na Escrever Escrever. Foi aí que começámos a trocar mais impressões sobre o terror. Nunca sequer imaginei escrever nada! Gostava de ver filmes de terror, e, mesmo tendo medo, via à mesma. Durmo com as luzes todas acesas, mas não me privo de ver.

E lembras-te de qual foi o primeiro filme que viste?

Não! Eu sou péssima para decorar nomes! [risos] Mas acho que os primeiros filmes terão sido o Fright Night e o Chucky.

É com o curso de Escrever Terror que começas a escrever? Ou já escrevias alguma coisa antes?

Já escrevia coisas, mas de terror não. Escrevia coisas soltas, lamechas. Acho que escrevia mais na minha mente porque agora treino muito isso com o terror. Muitas vezes, tinha ideias, mas tinha muito mais ideias na minha cabeça do que propriamente escritas. Quando o Pedro me disse «eu acho que devias fazer o curso de Escrever Terror porque acho que te encaixas bem», nunca na vida pensei que tivesse algum jeito. Quando realmente vi que conseguia pôr por escrito tudo aquilo que estava na minha cabeça, pensei «ah, isto é terapêutico, isto é bom».

E a dada altura, chega o convite para integrares a antologia Sangue Novo.

Fiquei contente, mas, por outro lado, fiquei preocupada, porque pensei: «tenho mesmo de escrever alguma coisa decente e que esteja de acordo com o que o Pedro ache bem ou que se encaixe». Apesar de sermos todos diferentes. E acho que a graça do livro é essa, é cada um ter a sua perspetiva e serem histórias muito distintas. O que sempre pedi ao Pedro foi: «diz-me sempre a verdade, nunca me deixes fazer figuras» [risos]. Queria sempre a verdade, mesmo que [ele me] dissesse: «olha, isto não há ponta por onde se lhe pegue, tens de começar uma coisa nova». Foi só isso que eu lhe pedi. A história eu já tinha na minha cabeça. O meu «Manicómio [das Mães]» estava já muito na minha cabeça, as personagens já estavam muito na minha cabeça, o cenário, tudo. A história em si, aquele final, é que eu não tinha pensado, então fui escrevendo. Isso também foi mais difícil para mim. Houve ali uma altura em que parei porque não conseguia dar continuidade. Mas depois desbloqueou e lá foi.

Então começas pela parte visual, é como se visses o cenário primeiro, consegues ver as personagens, e depois é que vais construindo a história. Quando estavas a escrever, ias aceitando o retorno do editor? Para ti era perfeitamente normal? Não ficas incomodada? Do género: «mas eu quero que o conto seja assim, portanto vai sair assim»?

Não, não, não. Eu dou-me muito bem com o Pedro e ele é uma pessoa totalmente oposta de mim. E ele é muito tranquilo, perdeu muito tempo comigo, eu tenho essa noção. Ele nunca desistia, mas nunca insistia. E eu aceito as coisas, a não ser que não seja bem aquilo que eu queira dizer, e aí insisto um bocadinho. Mas isso não me desmotiva.

O Pedro diz que a tua assinatura é o «terror da terrinha», mas no «Manicómio das Mães» não se vê. Aí, foste buscar uma temática completamente diferente. Entre este «Manicómio» e escrever só «terror da terrinha», tens preferência?

Eu gosto do «terror da terrinha» porque acho que é uma coisa muito especial. São aquelas coisinhas dos meios pequenos, as pessoas têm mezinhas e as rezas. Isso é uma coisa que me chama muito, talvez porque, como os meus pais são de uma terra pequena, e eu passei lá muito tempo da minha infância, fui sempre apanhando essas coisas. Lembro-me, por exemplo, de ter ido passar umas férias da Páscoa à terra da minha mãe, estava aborrecida porque não tinha nada para fazer, e o meu avô deu-me o livro de São Cipriano. Imagina eu, para aí com 12 anos, a ler aquilo e a pensar: «isto está aqui qualquer coisa que correu mal, porque isto é super estranho, olhos de sapo e não sei quê». E era uma versão muito antiga que tinha vindo de uns primos do Brasil. Portanto, tenho essas lembranças. E depois, a minha mãe ia-me contando muitas histórias, a minha avó também, e fui sempre acumulando muitas histórias da terrinha.

Tu tens então um repositório enorme! E isso é interessante, porque há muito pouco terror escrito com essa base. O que me leva a perguntar-te sobre a tua participação no «Rua Bruxedo» da Imaginauta. Como é que foi esse processo de sentires «estou preparada para concorrer com um conto para esta antologia»?

A antologia é sobre lendas portuguesas contadas de outra maneira. Comecei a fazer pesquisa e gostei muito do processo. Quando recebi a notícia de que tinha sido selecionada, [fiquei surpreendida, mas feliz]. E o Pedro disse-me logo: «isso é bom, porque vês que há outras pessoas que gostam daquilo que tu escreves, que não sou só eu que estou a dizer que tu escreves bem, e que tens boas histórias». Foi uma validação, uma coisa boa. Mas eu confesso que ainda não estou bem em mim, só quando o vir mesmo publicado é que acredito.

Eu quero muito ler coisas tuas de «terror da terrinha».

Sim, é a minha preferência. Mas o «Manicómio» era uma história que eu queria que as pessoas conhecessem.

Já tiveste muitas mães a ler o «Manicómio»? 

Eu fui acompanhada à apresentação do livro [Sangue Novo] por três mães de rapazes. Acho que não me vão fazer uma espera! [risos]

Eu gostei sobretudo de descobrir que o filho da personagem principal, a Bárbara, é já um adulto quarentão! Ao início da história, consegues levar-me a sentir-me solidária com ela, e depois puxas-me o tapete de debaixo dos pés! E também não estava à espera daquele final. 

Inicialmente, pensei que a personagem ia matar alguém no final, mas podia ser o ex-marido ou o próprio filho, ou a médica. Queria deixar em aberto a intenção da irmã, que fica como tutora dela, mas que vai levar o sobrinho para o estrangeiro. Por isso, é também um pouco estranho. Fica ali a dúvida se esta irmã tinha alguma má intenção ou não. E pensei que seria uma coisa mais sentida por ser alguém do próprio sangue.

«Obra feita», como diz a personagem! Suponho que o manicómio não exista mesmo?

Não, não existe! Mas podia perfeitamente existir. Para as personagens, confesso que me baseei em algumas pessoas reais, histórias que uma pessoa vai ouvindo, e depois há personagens muito extremas, como a Lurdes, a empalhadora. Foi completamente imaginada!

O que é que achas que vai acontecer a seguir ao Sangue Novo? Que portas é que achas que abre para os autores, para o género?

Eu nunca imaginei que fosse dar nisto. No início, até dizia ao Pedro que, quando fôssemos apresentar o livro, queria ficar na plateia [porque não gosto de ser o centro das atenções]. Se eu puder estar completamente oculta, para mim é o ideal. Faz-me um bocadinho de confusão, no sentido de me expor, porque o terror dá-me uma coisa muito boa que é poder dizer o que me apetece sem pensar: «vou ferir estas suscetibilidades, esta pessoa vai ficar aborrecida». Não, eu posso dizer aquilo que eu quiser. É terror, não é para ser simpática com ninguém, e isso dá-me uma liberdade muito grande. E pensei «espero que isto não me corte isso», porque eu divirto-me tanto a escrever e é tão gratificante que não quero de forma nenhuma perder isso. Acho que vamos ter muitos frutos, [seja] de que forma for. Acho que para todos nós vai ser benéfico, nem que seja pelo estímulo de continuar a escrever, de avançarmos com o género, de entusiasmar outras pessoas que também gostam, que acabam por dizer «ai, não sei se escreva ou não escreva» e ficam na dúvida.

E tivemos a vantagem de sermos 15 autores diferentes, com 15 histórias e estilos distintos. No futuro, vês-te a publicar em nome próprio um livro de «terror na terrinha»? 

Sim, o Pedro também já me tinha dito que eu podia fazer um livro com os meus contos todos. O Teias [de Aranha] é a minha rotina. Sei que tenho de escrever para aqueles temas e vou sempre pensando. Fiquei muito mais observadora, ouço uma palavra e escrevo-a porque se vai encaixar num sítio qualquer. No meu bloco de notas, tenho muitas palavras soltas e, quando vou escrevendo, lembro-me: «ah aquela palavra faz sentido aqui» e ponho-a no texto. Espero que sim, que consiga juntar esses contos da terrinha. No caso [do conto para a] antologia Sangue, escrevi em tempo recorde. Aí, o processo foi diferente do «Manicómio das Mães». Comecei por escrever o fim e foi uma choradeira! Era muito comovente. É terror, a parte final acaba mal, mas acaba por ser muito visual e há ali muito amor também. Nunca tinha escrito nada assim e gosto muito dele. As minhas histórias são muito objetivas. Eu quero chegar lá e o meu caminho é muito direito. O maior conto que escrevi [até agora] foi o «Manicómio». Escrever contos acaba por ser viciante porque temos muitas histórias para contar e vamos escrevendo sobre temas diferentes. Por isso é que acho que o Sangue Novo e outras antologias são muito ricas, porque têm um bocadinho de tudo.

Escreves todos os dias ou não consegues?

Não consigo. É muito difícil com o trabalho. Vou tirando notas à medida que tenho ideias. E depois, depende. Há dias em que a história vem toda de uma vez e começa a ser escrita na minha cabeça.

E o que escreves vais partilhando nas oficinas Teias de Aranha e com outros autores do Sangue Novo.

Fico muito feliz de ter feito parte deste projeto e de vos ter conhecido a todos porque, de facto, me sinto muito à vontade com vocês e compartilhamos o mesmo gosto. É um privilégio. É uma partilha muito grande. E o que  mais gosto é que, num tema igual, toda a gente tem uma perspectiva muito diferente.

E o terror pode ser muito diferente, de facto.

Sim. Por exemplo, a história que eu escrevi para a antologia Sangue é terror, mas não é aquela coisa que muita gente imagina: «é só sangue e uma desgraça pegada». Posso escrever histórias que me assustam a mim e não assustam outra pessoa. Há muitas histórias diferentes e isso é que é engraçado. Acho que é um trabalho que ainda temos de fazer, [mostrar a diversidade do género]. Uma boa história é uma boa história, independentemente do género que seja.

E continuar a escrever, sempre.

Sim. Não cair na tentação de fazer uma pausa, porque agora estou aqui a usufruir disto. É esse treino. É esse rigor de escrever qualquer coisa, nem que seja só uma ideia e depois trabalhar nela.