Recomendações de leituras para janeiro
Livros de romance, contos e não ficção.
Sejam quais forem os vossos objetivos de leitura para 2026, aqui têm três escolhas muito diferentes entre si para começar o ano.
Para janeiro, trago-vos três recomendações.
A primeira é Piranesi, de Susanna Clarke,
um livro onde a história é contada através de entradas de um diário escritas por Piranesi, o narrador, que se encontra num mundo completamente diferente — essencialmente, uma casa com divisões infinitas.
A perspetiva com que vemos a história é, como seria de esperar, muito limitada, mas chegará uma altura em que conseguimos ver para lá daquilo que o narrador nos conta. É assim que começamos a apercebermo-nos de coisas estranhas que Piranesi acha serem normais, e a suspeitar de intenções de outras personagens, ainda antes de Piranesi, tão imerso naquela realidade ao ponto de pensar que ela é tudo o que existe.
Este livro faz-nos pensar sobre como o ambiente e o contexto em que vivemos podem moldar a forma como vemos o mundo, e o que é o mundo para nós. É uma história que mistura elementos de uma casa muito única com mundos paralelos e experiências sobre personalidade. É inquietante a forma como conseguimos permanecer fora da história e entender sempre mais do que Piranesi e, ao mesmo tempo, entrar na mente dele e entender exatamente como ele se sente.
A próxima recomendação é um livro de contos, O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado.
Nestas histórias, a autora pega em noções e situações sobre mulheres, normalizadas na sociedade, e dá-lhes uma nova luz, usando muitas vezes o terror para explicitar o quão chocantes são. E, mesmo assim, há histórias muito diferentes entre si — desde o ponto de vista do marido, a mulheres a serem vistas como objetos, a cirurgias para perder peso, aos temas recorrentes em narrativas góticas onde surgem mulheres e até mesmo a formas de lidar com eventos traumáticos.
A tudo isto somam-se o terror e o sobrenatural, que tornam ainda mais evidentes os problemas que, infelizmente, ainda fazem parte da vida de muitas mulheres. São histórias que ficam connosco, quer pela forma como abordam estes temas, quer pelo leitor estar constantemente a ser envolvido nelas.
Para os que gostam de começar o ano com não ficção, para os que escrevem ou gostariam de se aventurar na escrita, recomendo o Escrever: Memórias de um Ofício, de Stephen King.
É um livro de memórias sobre a forma como o autor encontrou a escrita, como a vê e como se tornou escritor. Tem dicas de escrita, sim, mas é um livro muito mais biográfico do que de instruções sobre como escrever bem.
Lemos sobre as partes menos gloriosas do caminho de um escritor tão reconhecido no mundo do terror e, acima de tudo, lemos sobre o que significa a escrita para ele, o que nos leva a pensar sobre o que esta significa para nós. E, acreditem, há dicas e histórias que continuam connosco muito depois de acabarmos o livro.
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Madalena Feliciano Santos
Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.







