Sustinhos «O Monstro da Vergonha», de Tânia Carneiro

Dentro de nós vive um monstro que ocupa muito espaço. 

Vergonha adora fazer-nos sentir pequeninos. Ri-se da nossa figura e rouba-nos as palavras. Pinta-nos as bochechas de vermelho, isola-nos em lugares feios e alimenta-se do nosso medo.

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Marta Nazaré

Recomendado para 4+

Este monstro é tão difícil de derrotar que, atualmente, há adultos que ainda não conseguiram livrar-se dele. Poderá a menina desta história vencer este sentimento monstruoso, tendo ela tanto medo do que as pessoas possam ver nela?


O Monstro da Vergonha é enorme, mas passa despercebido. Nós vemo-lo ao nosso lado, a provocar-nos, mas as outras pessoas não o veem. Ele só é visível para a pessoa que está a atormentar.


Pode ser um monstro felpudo e cor-de-rosa, mas é tudo menos fofinho. É invasivo, gozão e um pouquinho cruel, também. Tenho a certeza de que todos vocês já se cruzaram com ele ao longo da vida. No meu caso, aparece-me sempre quando tenho de ler os meus contos ou dar opiniões dos contos dos outros autores na Via do Medo. Tal como eu, ele é um frequentador assíduo das oficinas da Fábrica do Terror. Não perde pitada.

Por culpa dele, acreditamos que não somos suficientemente bons no que fazemos. Por sugestão dele, calamo-nos e isolamo-nos com medo de sermos criticados ou ridicularizados. E, por lhe darmos ouvidos, transformamo-lo numa criatura invencível do tamanho de um arranha-céus. Mas tudo não passa de aparências, vos garanto. É o que dá andarmos com más companhias. Só comecei realmente a perceber isto e a reconhecer os sinais da influência deste monstro depois de ler este livro.

O Monstro da Vergonha, da Editora Jacarandá, é um manual para leitores de todas as idades, ajudando-os a tornarem-se conscientes da presença do Vergonha e a aceitarem-se como são. Esta criatura nada mais é do que um sinal de uma dor que merece atenção e compreensão. (Uma dor que tem de ser abraçada, diria eu, que sou pessoa de abraços.) Os sentimentos difíceis têm de ser acolhidos — a insegurança e a vulnerabilidade fazem parte do crescimento de todos nós — para, com coragem e autoconhecimento, podermos superar emoções ou desativar gatilhos que nos limitam.

No espaço controlado deste livro, a autora Tânia Carneiro e a ilustradora Ana Oliveira dão forma a esta personagem-monstro. Tornam visível e mais percetível esta emoção que impede tantas pessoas de serem quem são. Conferem-lhe corpo, presença, voz e vontade própria. Se podemos ver esta criatura grande, com sobrancelhas grossas e um sorriso trocista, será mais fácil identificá-la e confrontá-la para nos libertarmos do seu jugo. Será mais fácil superá-la.

As ilustrações de Ana Oliveira, de cores vivas e expressivas, desempenham o papel determinante de equilibrar momentos sensíveis da narrativa com ternura, fazendo-nos perceber que a vergonha não é apenas uma emoção. A vergonha é complexa, pois nunca vem só. Agregados a ela, temos vários tipos de sentimentos: o medo, a ansiedade, a frustração e a tristeza. E esta bola avassaladora de emoções monstruosas é difícil de digerir em determinadas alturas da vida, como quando temos de subir a um palco, falar numa aula, dar a nossa opinião num grupo de amigos, etc.


Em suma, o Monstro da Vergonha nunca desaparece de vez. Mas pode diminuir. Se não o deixarmos atingir proporções desmedidas, podemos contê-lo.


No fundo, os monstros só têm o poder que lhes damos. Cabe a cada um de nós encontrar o seu método de os diminuir, de os reduzir para os monstrinhos que verdadeiramente são.


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Marta Nazaré

Marta Nazaré, nascida em Lisboa, a 5 de março de 1981, é formada em Letras e Tradução de Inglês. Dedica-se a tempo inteiro à tradução de livros infantojuvenis e à legendagem de filmes e séries.
Descobriu o terror em tenra idade na papelaria do bairro que vendia a coleção «Arrepios», de R. L. Stine. Ainda hoje, o terror infantojuvenil é o seu género preferido.

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