A Última Sessão
Ninguém se lembra de quem fechou o Salão García naquela noite. Isso é a primeira coisa que me inquieta agora, tantos anos depois.
Eu era o encarregado do último turno. Não um projecionista de verdade — essa figura já não existia —, apenas um técnico contratado ocasionalmente para cobrir o fecho após uma retrospetiva de terror clássico. O festival tinha terminado. As pessoas tinham ido embora. Na sala ficara aquele silêncio espesso que se deposita nos edifícios quando deixam de cumprir a sua função.
Apaguei as luzes da plateia uma a uma. O som de cada interruptor demorava mais do que o habitual, como se o espaço resistisse a aceitar que tudo tinha chegado ao fim.
Então, ouvi algo.
Vinha da zona técnica: um zumbido baixo, irregular, semelhante ao arranque de um equipamento digital sem ordem prévia. Reconheci-o logo e, precisamente por isso, soube que não devia estar a acontecer. O sistema de projeção estava desligado. Eu próprio o tinha verificado minutos antes.
Avancei pelo corredor lateral que conduz ao controlo técnico. Os meus passos soavam estranhos naquele espaço vazio, como se o edifício amplificasse qualquer presença para não ficar só.
Lá dentro, o equipamento mostrava atividade.
O servidor central permanecia inativo, tal como o sistema habitual de controlo. Apenas o projetor auxiliar, usado em testes e montagens, estava ligado. A interface marcava uma cadência irregular. As ventoinhas giravam sem projetar imagem nenhuma.
Na sala, a tela converteu-se numa superfície negra perfeita.
Não era falta de projeção, mas algo mais compacto: uma presença densa, como uma lâmina líquida que absorvia o olhar e devolvia outra coisa.
Compreendi então que aquilo não se dirigia a nós. Procedia de outro lugar.
O mar irrompeu na divisão.
O som das ondas enchia o espaço fechado. Um cheiro acre, uma mistura de salitre e matéria orgânica em decomposição, tornou o ar irrespirável. A sensação era a de que a ria tinha encontrado uma fenda pela qual entrar.
Algo se moveu na tela.
Nada definido. Nenhuma forma estável. Sombras a deslocarem-se sob aquela superfície escura, a pressionar, a testar, como se buscassem um ponto fraco.
Pensei em desligar o sistema. Em ir embora. Em fazer como se aquilo não estivesse a acontecer.
Então, apareceu o reflexo.
Não surgiu de um vidro, mas da própria tela desligada, que já não devolvia a imagem da sala, mas algo distinto.
Atrás de mim estava alguém.
Um homem magro, vestido com roupa impossível de situar numa época concreta. O rosto nunca chegava a fixar-se de todo na realidade. As mãos estavam manchadas de uma substância escura que não era gordura nem pó.
— Não pares — disse.
Os seus lábios não se moveram. A frase formou-se diretamente na minha cabeça, como um pensamento alheio.
— Enquanto a tela continuar viva, eles dormem.
Soube quem era sem necessidade de explicações. O Primeiro Operário. O custódio. O primeiro que entendeu que o cinema não era um espetáculo, mas uma barreira.
O equipamento reagiu com uma vibração profunda, não como falha técnica, mas como resposta. As sombras golpearam a superfície negra a partir de dentro. O edifício inteiro emitiu um ranger longo, como uma estrutura submetida a uma pressão que não lhe correspondia.
— E quando termina o festival? — perguntei, sem saber porquê.
O reflexo fez algo parecido a um sorriso.
— Nunca.
Então compreendi a verdade que ninguém explica nos programas nem nas apresentações oficiais: o Curtas Festival do Imaxinario não abre o Limiar. Mantém-no fechado.
Cada sessão, cada projeção, cada espetador sentado na escuridão sem saber por que sente inquietude faz parte do mesmo gesto antigo: embalar aquilo que sonha sob a ria.
O sistema desligou-se sozinho.
A tela recuperou a sua brancura habitual. O ar limpou-se.
Quando me virei, a sala estava vazia. O equipamento, inerte. Como se nada tivesse ocorrido.
Fechei o Salão García. Tranquei a porta. Não olhei para trás.
No dia seguinte, ninguém soube explicar-me por que o registo interno marcava uma projeção a mais do que as programadas.
Desde então, cada vez que passo diante do edifício durante o festival, tenho a certeza de que algo observa a partir de debaixo do chão. Algo paciente. Algo que espera.
E rezo — embora não acredite em nada — para que nunca falte a luz.
Porque se a tela se desligar, Vilagarcía não acordará da mesma maneira.
SOBRE OS AUTORES
Manuel Losada
(Pontevedra, 1982) foi alcunhado pela crítica e pelos leitores como o «Stephen King de Arousa». A sua capacidade para gerar tensão e atmosferas opressivas consolidou-o como uma das vozes mais potentes da narrativa de mistério. Com mais de 400 000 cópias vendidas do seu êxito A fábrica do esquecemento, o seu estilo viciante posiciona-o como o narrador ideal para enriquecer o universo fantástico do Curtas Festival do Imaxinario.
Santipérez
(Madrid, 1970) é um mestre da banda desenhada de terror cuja trajetória começou nos anos 90 na mítica revista Creepy. Com um estilo meticuloso e detalhista que bebe de influências como Bernie Wrightson, é uma referência internacional com obras como Various Horror Visions ou El Taxidermista. A sua passagem pelo Curtas Festival do Imaxinario em 2025 demonstrou a sua capacidade para criar mundos visuais hipnóticos, convertendo-o no aliado perfeito para a narrativa de Losada.





