Enquanto Houver Luz
O aviso entrou às quatro e vinte e duas da madrugada.
Uma incidência na linha que alimentava parte do centro histórico. Não um apagão completo, mas algo mais incómodo: quebras de tensão irregulares, reinícios espontâneos, lâmpadas que perdiam intensidade sem chegar a apagar-se de todo.
Brais trabalhava há doze anos no serviço de manutenção elétrica do município e conhecia bem esse tipo de chamadas. Quase sempre eram humidades, cabos velhos, caixas mal seladas. Problemas menores que se resolviam sem pensar demasiado e se fechavam com um relatório padrão.
Naquela noite, porém, o mapa chamou a sua atenção.
As incidências não estavam dispersas. Seguiam-se sobre o mapa formando uma linha irregular, um traçado que não coincidia com a distribuição moderna da rede. Não respondia a critérios de eficiência nem a ampliações recentes. Parecia algo anterior, desenhado quando a cidade ainda se pensava de outra maneira.
— Isto não tem lógica nenhuma — murmurou, pegando na lanterna.
Começou pela caixa mais próxima do Salão García.
Ao retirar-lhe a tampa, notou a sensação antes de identificar a causa. Não era o zumbido habitual de uma instalação em carga, mas uma pressão baixa e constante, um latejar que não figurava em nenhum manual técnico. Os cabos estavam quentes, mas não sobrecarregados. Os valores eram corretos.
Demasiado corretos.
Anotou mentalmente a anomalia e seguiu em frente.
A caixa seguinte apresentava o mesmo padrão. E a seguinte também. Instalações antigas, algumas oficialmente dadas de baixa, continuavam ativas, bem mantidas, integradas num circuito que já não aparecia nos esquemas atuais.
Não parecia um trabalho mal feito.
Parecia manutenção.
Avançou seguindo o traçado, abrindo registos um a um, até se aproximar da zona do porto. Ali, a última tampa estava coberta por uma camada de sal recente, húmida, como se a tivessem acabado de retirar da água.
Ao afastá-la, o latejar intensificou-se.
As luzes da rua perderam força ao mesmo tempo e recuperaram-na de imediato, numa sincronia perfeita. Nenhuma saltou.
Nenhuma se apagou de todo.
Brais ficou imóvel.
Não por medo.
Por cálculo.
O rádio chiou.
— Recebemos mais alertas — disse a voz da central —. Mas não cai nada, sabes. Tudo continua de pé. É estranho.
— Já estou a ver — respondeu ele.
Não cortou o fornecimento.
No relatório anotou que a incidência tinha ficado resolvida mediante ajustes menores. Não detalhou quais. Ninguém lhos pediu.
Arquivou-se como uma anomalia sem consequências.
Antes de ir embora, apoiou a mão sobre a tampa já fechada.
Estava quente.
Não um calor perigoso, mas estável, sustentado, como o de um corpo em repouso.
Desde aquela noite, cada ano, Brais solicita voluntariamente o turno durante o Curtas Festival do Imaxinario. Revisa essa linha com mais atenção do que qualquer outra. Substitui peças antes de falharem. Limpa contactos que ainda funcionam perfeitamente.
Nunca propõe modernizá-la.
Sabe que há sistemas que não se otimizam.
E que um segundo de escuridão pode ser mais longo do que o que marca o relógio.
SOBRE OS AUTORES
Manuel Losada
(Pontevedra, 1982) foi alcunhado pela crítica e pelos leitores como o «Stephen King de Arousa». A sua capacidade para gerar tensão e atmosferas opressivas consolidou-o como uma das vozes mais potentes da narrativa de mistério. Com mais de 400 000 cópias vendidas do seu êxito A fábrica do esquecemento, o seu estilo viciante posiciona-o como o narrador ideal para enriquecer o universo fantástico do Curtas Festival do Imaxinario.
Santipérez
(Madrid, 1970) é um mestre da banda desenhada de terror cuja trajetória começou nos anos 90 na mítica revista Creepy. Com um estilo meticuloso e detalhista que bebe de influências como Bernie Wrightson, é uma referência internacional com obras como Various Horror Visions ou El Taxidermista. A sua passagem pelo Curtas Festival do Imaxinario em 2025 demonstrou a sua capacidade para criar mundos visuais hipnóticos, convertendo-o no aliado perfeito para a narrativa de Losada.





