A Ilha Onde Não Há Luz
O processo estava há anos no fundo do arquivo municipal.
Não era confidencial. Tampouco figurava como extraviado. Simplesmente ficava fora de classificação. Cada reorganização devolvia aquela pasta à mesma gaveta.
Uxía encontrou-o quando revia incidências antigas para uma auditoria.
Trabalhava como técnica de património. A sua função consistia em verificar que os bens catalogados continuavam a existir, de pé, a ocupar o lugar indicado nas plantas.
Na capa do processo aparecia um único nome:
Cortegada.
Dentro não havia relatório completo. Só fragmentos: pedidos de acesso sem resposta, notas manuscritas sem assinatura, uma ordem de inspeção pendente.
No final, um documento dobrado, manchado pelo salitre:
«O encarregado deslocou-se para a ilha por vontade própria. Não se prevê regresso a curto prazo.»
Não figurava identidade nem cargo.
Uxía solicitou informação adicional.
A resposta foi vaga.
— Isso vem de antes — comentou um colega —. Sempre esteve assim.
Dois dias depois atribuíram-lhe a visita.
A indicação era simples: verificar o estado de um imóvel vinculado a projeções históricas.
O barqueiro limitou-se a manejar o motor. A trajetória evitava certas zonas da ria.
— Não vamos contornar a ilha? — perguntou ela.
— Há rotas melhores — respondeu.
Ao desembarcar percebeu uma mudança subtil.
O som chegava com normalidade, mas apenas retornava. A luz penetrava entre as árvores sem produzir brilho. O chão mantinha humidade constante, mesmo longe da maré.
O edifício era mais pequeno do que o esperado. Sem placas nem sinalização. A porta permanecia entreaberta.
No interior havia bobinas de película guardadas em caixas de madeira, etiquetadas com caligrafia precisa. Cadernos com anotações técnicas e diagramas da ria traçados a partir de perspetivas pouco habituais. Sobre uma mesa, um projetor antigo permanecia limpo e ligado.
Não parecia abandono.
Uxía chamou.
A resposta foi o eco leve da sua própria voz.
No quarto do fundo encontrou uma cama feita com cuidado. Um prato seco colocado junto ao candeeiro apagado.
E um espelho.
Durante um segundo refletiu a divisão vazia. Depois a superfície oscilou, como se o fundo fosse mais profundo do que indicava a moldura.
Uxía desviou o olhar.
A visita não registou incidências formais.
No relatório registou: imóvel estável, sem riscos estruturais, atividade técnica não documentada, mas operativa.
O processo regressou à gaveta.
Desde então, todos os anos, quando se aproximam as datas do Curtas Festival do Imaxinario, recebe um e-mail sem remetente.
Assunto: Cortegada.
Texto: «Continua a funcionar.»
Uxía não responde.
Limita-se a arquivar.
SOBRE OS AUTORES
Manuel Losada
(Pontevedra, 1982) foi alcunhado pela crítica e pelos leitores como o «Stephen King de Arousa». A sua capacidade para gerar tensão e atmosferas opressivas consolidou-o como uma das vozes mais potentes da narrativa de mistério. Com mais de 400 000 cópias vendidas do seu êxito A fábrica do esquecemento, o seu estilo viciante posiciona-o como o narrador ideal para enriquecer o universo fantástico do Curtas Festival do Imaxinario.
Santipérez
(Madrid, 1970) é um mestre da banda desenhada de terror cuja trajetória começou nos anos 90 na mítica revista Creepy. Com um estilo meticuloso e detalhista que bebe de influências como Bernie Wrightson, é uma referência internacional com obras como Various Horror Visions ou El Taxidermista. A sua passagem pelo Curtas Festival do Imaxinario em 2025 demonstrou a sua capacidade para criar mundos visuais hipnóticos, convertendo-o no aliado perfeito para a narrativa de Losada.





