O Lamento dos Inocentes
De Carlos Filipe R. Matos
Um grito ou um choro num hospital nunca são bons augúrios. À excepção, claro, do choro desesperado de um recém-nascido acabado de chegar à nossa existência, e que cessa uma vez entregue aos braços alegres da mãe, que o recebe em lágrimas. Trata-se de um estranho ritual humano, semelhante a uma tortura medieval, mas que termina, geralmente, numa felicidade incomensurável.
Porém, uma notícia apregoada durante a época alta de partos furtou a jovialidade e a balbúrdia diárias dos corredores da maternidade e do resto da unidade hospitalar. Às portas do hospital, tinham deixado uma alcofa com mais uma criança. Não seria a primeira nem a última, como tantas que ali haviam sido abandonadas à sua sorte.
O pequeno, no entanto, devido à sua condição anómala, não pôde ser retirado da cesta. E, para evitar o risco de contágio, foi isolado do normal contacto humano.
Ao longo de duas semanas, a Polícia Judiciária abriu uma investigação para identificar o paradeiro da infeliz progenitora, enquanto o hospital se ocupava do estudo da malformação, na tentativa de descobrir como seria possível o desafortunado ter vindo ao mundo daquela forma.
Igualmente peculiar era a ausência de som que se propagou pelo departamento como uma fuga de gás. Durante as duas semanas em que a criança ali esteve, não se ouviu qualquer choro nas dezenas de partos diários. O único rumor que vagueava, moribundo e sussurrado, era o de que os bebés seriam os únicos a compreender o que se passava.
Da Polícia Judiciária, não surgiu nenhuma pista sobre a mãe, nem os médicos apresentaram nenhuma teoria sobre o pequeno infeliz. Todas as tentativas de o alimentar revelaram-se infrutíferas, e o lactente acabaria por sucumbir à sua bizarra existência. Com o óbito anunciado, a tranquilidade doentia que tinha tomado como refém todo o departamento dissipou-se gradualmente, e os bebés regressaram ao berreiro.
Quanto ao silêncio daqueles inocentes, as enfermeiras mais religiosas acreditavam que estes se tinham calado com medo do estranho inquilino, enquanto outras, mais positivas, se ficavam pela hipótese da compaixão. A aparente normalidade, no entanto, não devolveu a alegria nem o alívio de que a maternidade tanto precisava, sendo a implacável quietude sucedida por algo mais estranho e perturbador. Apesar de ter durado apenas alguns dias, em vez do choro natural, os recém-nascidos emitiam um som arrepiante, a meio caminho entre um sussurro e um gemido.
Todos os enfermeiros ou médicos que entravam nos quartos não conseguiam permanecer por mais de alguns minutos, muitos deles saindo atordoados ou em lágrimas. Embora não tenha sido registada nenhuma morte, três enfermeiros — dois homens e uma mulher — foram apanhados enquanto se debruçavam nas janelas. Quando questionados, não se lembravam de nada, além de um incalculável sentimento de perda.
Os bebés que nasceram naqueles poucos dias foram levados para a sala de cuidados para serem testados, mas nenhum resultado revelou uma explicação. Estavam todos saudáveis, em perfeita condição física.
Sobre o sinistro acontecimento, que se estendeu a pouco menos de uma semana após a morte do pequeno, a superstição prevaleceu onde a ciência não conseguiu encontrar respostas. Assim, o pranto decadente dos recém-nascidos foi interpretado como um lamento. Como luto pelo bebé feito de mármore.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Carlos Filipe R. Matos
Carlos Filipe Rilhó de Sousa Matos nasceu em Faro, a 21 de julho de 1981, e reside em Quarteira. Depois de Ficheiros Secretos, Twin Peaks, Twilight Zone, Riget e outros, veio o interesse por literatura de terror, com um interesse pouco saudável nos cenários macabros de Clive Barker, Lovecraft, H.R. Giger, Junji Ito e amigos. A forte ligação ao terror literário e cinematográfico do rock e metal juntam os hobbies de escrita, bateria e jogos de computador, claro.







