A Adúltera
de Beatriz Alves da Silva
Levantou-se para ir buscar um copo com água. Não conseguia dormir. Não conseguia mais ouvir-se.
Ela morreu porque quis.
Morreu porque quis foder um gajo.
A culpa foi dela. Assim ficou decidido em tribunal: a vítima era uma adúltera que foi ao encontro da morte. Assim eram as manchetes: «Encontro com a morte». Parecia o título dum romance barato dos anos oitenta. Já estava a imaginá-la na capa, com os cabelos ao vento, as alças a escorrer pelos ombros, o ar de menina assustada a fugir de qualquer coisa que a perseguia. Mas aquela que aparecera na última hora do Jornal da Manhã não era uma adolescente apanhada de surpresa por um date anónimo que finge ser o que não é. Não.
Não quis acreditar quando, nesse dia, ligou a televisão, por acaso, tentando abstrair-se da angústia pela demora da namorada, sozinha sabe-se lá onde àquela hora da madrugada, sem lhe atender as chamadas, e reconheceu, no ecrã, a sua mala preta, já surrada, com uma correntinha dourada, estatelada no chão pantanoso, e logo a seguir, sem cortes, o seu corpo numa cama, nu, rasgado, completamente rasgado, revirado e remexido como uma bolsa com o forro para fora. Um impossível buraco escavara-lhe a garganta, as mamas e o tórax, mas era ela, sem dúvida: os abissais olhos, então brancos como bolas de bilhar, a língua caída como um figo esmagado, as pernas abertas, enceradas de sangue, os pés minúsculos, a vagina descoberta. Surrealmente, e apesar de minuciosamente raspada na noite anterior, esta última estava, segundo a autópsia, incólume, o que lhe dava um certo consolo.
A câmara lambia-a como um amante, e ele assistia sem poder intervir. Dali, sentia-lhe o corpo ainda quente, o suor interrompido, o odor da carne a estalar nos cremes adocicados que ela espalhava com arte, agora inúteis, para sempre lambuzados na moca com pregos.
Sabia que, não muito tempo depois, aquilo apareceria nos sites de notícias e, após ser retirado, algures na deepweb, onde os bocados da sua namorada estariam, como estavam já, a ir e vir no colo de tarados… Que nojo. Talvez ela tivesse gostado disso, sim, sempre gostou de se expor no café, nos bares, à frente dos amigos dele, a rir demasiado alto com um vestido demasiado curto, de perna cruzada para evidenciar a panturrilha, agora mais do que nunca um belo naco, e a boca, apagada no vídeo, demasiado encarnada. Disso, ocorria-lhe agora, ela não teria gostado, que a sua boca impecavelmente pintada tivesse sido apanhada pela lente como um damasco desfeito. Conseguia até ouvi-la dizer, antes do flash: «espera aí, deixa-me pôr o batom.»
Não, não revelou nada disto em tribunal, nem disse que desconfiava, que ela andava a comprar lingerie que nunca chegou a usar, a pôr demasiado perfume antes de sair com as amigas, a gastar em lasers, manutenções e limpezas de pele, a gastar, a gastar, a gastar; já bastava o que bastava, os factos como postas de carne em cima da mesa, a pingar.
Tudo então lhe fez sentido: porque é que a reunião inesperada não podia esperar pela manhã, porque é que não podia ser online, porque é que não lhe atendia a merda do telemóvel. Corno, corno manso. A última mensagem da vítima, usada como meio de prova — a passar de mão em mão pelo juiz, pelo procurador, pelos média, pelos advogados do arguido, interessadíssimos pelo caso assim que souberam tratar-se duma mulher num motel, e sobretudo depois de saberem do namorado desesperado em casa — abria-lhe, nos olhos, uma cova tão funda como a do peito dela: a reunião não vai demorar, depois como aqui qq coisa. Compreensivelmente, perdeu-se e foi dar a um motel de beira de estrada que, de requinte, só tinha mesmo o nome. Ficou sem as mamas. Bem feita.
A água acumulava-se-lhe nas bochechas, quente, a formar uma gosma que temia engolir e ferir-lhe a garganta.
A garganta dela.
A garganta a explodir de jasmim na língua do amante. Sôfrega, pulsante, a estilhaçar por dentro. A pedir esporra. E depois esborrachada nos lençóis, indistinguível entre as tripas regadas de sémen. A primeira imagem enojava-o mais. Cuspiu.
Mas o que mais lhe doía nem era a traição, era que todos, todos, sabiam que ela tinha morrido porque queria satisfazer outro homem. Como encarar os amigos, a família, os colegas de trabalho? Como suportar os advogados que sujavam os dentes com o nome dele para lá e para cá, à sua frente: que dizer de alguém que deixa o companheiro em casa, coitado, ingénuo, preocupadíssimo, à sua espera, para se rebolar — tinham usado outra palavra, mas era assim que o recordava — noutro, e que apenas envia aquela frívola mensagem, sem uma despedida, um «até já, amor»? Via-se que estava com pressa, que se estava a desleixar nas desculpas, que acreditava mesmo que ia regressar de mansinho, «cansada do trabalho» e virar-se para o lado. Na Bíblia, a mulher adúltera era punida com a morte! Alguém tinha de lhe arrancar o fogo pela raiz, penetrar o músculo, revirar, revirar, arrancar, arrancar.
E não lhe arrancaram o suficiente, pensava.
A pena foi suspensa. A pena ficara para ele, o coitado, que tinha de arrastar os cornos como uma cruz. Não quis ir ao velório, não queria aparecer. Não queria prestar declarações, mas lá teve de ir fazer figura de otário. Não, não sabia, sim, estranhei, não, não disse nada, já respondi a essa pergunta, doutor, não sei, não. Não disse que não lhe tinha feito assim tanta confusão ver o corpo da namorada todo rebentado, que o tinha revisto mais do que as nudes dela, que não sentia nada, nada. Ou quase nada.
Ligou a televisão e procurou a reportagem gravada na madrugada da morte dela. Acelerou, rebobinou, viu de novo. Sentia aquele cheiro a entrar na sala, jasmim na traqueia podre; sentia-a, morna, macia, a babar-se dentro das suas calças.
Puta.
Puta!
Pô-lo para fora.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Beatriz Alves da Silva
Beatriz Alves da Silva nasceu em 26 de dezembro de 1993, em Lisboa. É licenciada em Direito, mas sempre teve uma paixão pela escrita. Tem preferência pelos géneros «menores» da literatura: erotismo, terror e comédia. Frequentou vários cursos de escrita criativa de poesia.







