O Que Plantei de Ti
de Sónia Pedroso
Quero lembrar-me dos teus olhos.
Recordo-me deles à luz do Sol, quando neles surgiam riscos dourados, finos e intensos, que atravessavam toda a iris.
Quando te rias, fechavas mais o esquerdo, e franzias o nariz numa careta engraçada.
Na praia, o azul do mar emprestava-lhes um tom esverdeado. O salgadiço aclarava-te o cabelo louro. Ficava em madeixas, e tu gostavas.
Num destino de sonho, onde as árvores subiam como um oceano suspenso, acabaste pendurado de cabeça para baixo. A escalada não era o teu forte.
Regressei sozinha a casa.
À chegada, levei a mão ao bolso do casaco. Trouxe comigo sementes douradas. Enroladas, com cuidado, num lenço teu. Não podia ficar sem uma recordação — um resto de ti.
Quando chegou a hora, preparei a terra e arei-a bem. Deitei as sementes e diariamente cuidei delas.
Na próxima Primavera, vão nascer.
Muitos olhos teus, dourados e grandes, que nunca deixarão de me olhar.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Sónia Pedroso
Sónia Pedroso nasceu em setembro de 1976 e vive com os dois filhos adolescentes. Saloia da Malveira, fez a escolaridade obrigatória no concelho de Mafra. Depois da não entrada na Faculdade de Letras de Lisboa, tirou um curso profissional e foi trabalhar. Atualmente, trabalha como técnica de contabilidade numa empresa de transportes.
Adepta de atividade física, pratica strong e muay thai para sanidade mental.
Leitora compulsiva desde nova, começou a escrever incentivada por um amigo e, desde então, não parou. Para melhorar esta arte, tem feito workshops, formações e clubes de leitura, porque não é de desistir facilmente.







