Caixa de Sugestões
de Nuno Amaral Jorge
Nenhuma das cartas parecia trazer a solução certa — electrónicas ou não, eram sempre cartas para ela. Não é que faltasse criatividade, mas nenhuma das propostas parecia acertar na sensação insubstancial que ela tinha. O seu apetite era intenso, mas infelizmente, não identificável. E uma voracidade abstracta tornava a saciedade mais selvagem, porque lhe parecia que só a um nível extremo poderia surgir uma solução.
Não faltavam as longas derivações de cariz sexual, não raramente sadomasoquista, com pormenores criativos, sem dúvida, mas mais centrados na gratificação e menos naquilo que ela pretendia. Ela lia essas cartas como folhetins licenciosos, alguns deles eficazes para passar o tempo, tentando uma distracção do seu sempiterno intuito.
Depois, havia os brutos. Tudo à base de violência contundente, mas rápida e de cariz altamente destrutivo. Partir, esmagar, desfazer. Os verbos não andavam muito longe de formas alternativas destas acções, que lhe eram prometidas com uma ferocidade discursiva, dispensada como algo solicitado. Ela ria-se. Como se essa fosse a maior das possibilidades de real violência.
Algumas das propostas eram elaboradas, envolviam rituais de dor prolongada, com lenta sanguinação, propondo a ausência de qualquer alívio senão aquando do fenecimento do corpo. Eram das mais interessantes. Ela conseguia simular, tanto quanto lhe era possível, os efeitos na pele, na carne e nos nervos, de alguns daqueles rituais tão doentiamente elaborados, e isso chegava a excitá-la. Um deles, envolvendo a dor nauseante de cabelo arrancada ao escalpe, era particularmente apelativa. Guardou essa carta. Podia vir a ser útil, ainda que parcialmente, como parte de outras práticas mais elaboradas e satisfatórias.
Apesar da dificuldade para escolher, nunca deixava de se sentir surpresa com a quantidade de propostas — e de pessoas das quais estas partiam. Muitas delas poderiam ser apenas bazófia diferida, protegida por ecrãs e falsos nomes, mas também havia o oposto — uma sede real de violência e crueldade que a deixava espantada, mas também agradada. Além disso, abafava um pouco o troar da solidão que ela tanto amava e detestava em simultâneo. Havia mais pessoas como ela, perdidas num desejo de violência e exploração de dor, expressos num sentimento em nada diverso de um apetite erótico e avassalador. Por outro lado, a dor purificava, e a pessoa mostrava, em agonia, quem realmente era. Era isso que ela queria. Era isso que pedia que lhe oferecessem, num formato que não pudesse recusar.
Os dias passaram, até que lhe chegou algo diferente. Uma carta detalhada de alguém que se dizia médico neurologista e anestesista e que, por isso mesmo, conhecia cada receptor de dor possível no corpo humano, sabendo como maximizar essa mesma dor por acção directa nas estruturas anatómicas. Entre várias referências mais abstractas, o proponente falou da temível nevralgia do trigémeo, e em como poderia potenciar a ocorrência daquela que é uma das piores dores que o corpo humano pode sentir. Ela arregalou os olhos. Ali estava, finalmente, uma possibilidade de ir mais além, de se dar conta de algo que nunca imaginara ser possível.
Com esta promessa em mente, trocou mais algumas mensagens com o candidato. Estava quase excitada, e tinha a certeza de que a escolha tinha sido a certa.
Dois dias depois, tinha preparado uma antiga casa de família, perdida num terreno situado na zona a noroeste de Lisboa. A marquesa, os instrumentos e ferramentas, tudo fora obtido e montado conforme as instruções do proponente.
Ele chegou pela manhã. Era um homem de estatura média, e tudo nele o adjectivava como comum, confundível em qualquer conjunto de pessoas. À excepção dos olhos. Azuis como água caribenha, moviam-se rapidamente, parecendo fitar tudo em simultâneo, e exibiam uma atenção arguta e intensidade cruel. Eram os olhos de um ávido. Como ela, na verdade. O homem entrou e verificou toda a instrumentação, elogiando o detalhe e rigor de toda a mise-en-scène.
Sentaram-se na sala. Ela serviu dois copos de cerveja artesanal, escura e deliciosa, mas sobretudo intensa o suficiente para ocultar o butabarbital . Além disso, ele não escondia a cupidez erótica ao olhar para ela, o que era ainda mais útil.
Quando acordou, o neurologista estava seguramente amarrado a uma marquesa. A luz branca, provinda das lâmpadas de halogéneo acima da marquesa, permitia ver cada detalhe de tudo quanto fosse alcançado pelo jorro esbranquiçado. O proponente estava atordoado, mas a adrenalina causada pelo terror rapidamente o despertou. Ela olhava-o, exibindo um sorriso agradado, como alguém que acabara de fechar um excelente negócio. Ao mesmo tempo, exibia um documento, mais propriamente um relatório médico, já marcado pelo tempo. Ordenou-lhe que o lesse, o que ele fez.
— Departamento de Neurologia. Paciente: Cassandra Marques. Diagnóstico de Analgesia Congénita — recitou ele, arregalando os olhos.
— Infelizmente, como vê, nunca poderia comprovar a realidade do que me descreveu. Nem cumprir a promessa de o deixar demonstrá-lo. Mas tenho uma outra solução possível. Uma durante a qual me poderá ir relatando o resultado de tudo. Da forma que lhe for possível, claro.
Ele gritou, em seguida, e continuou a fazê-lo de forma ainda mais intensa, conforme ela ia explorando os centros nervosos de dor, de acordo com as instruções que ele lhe dera antes. Não tendo treino médico, ia falhando os seus intentos mais precisos, mas lá ia acertando, e as explosões de dor maior do que o mundo iam-se sucedendo.
— Parece-me estar a correr muito bem, não acha? Só tem de me ir dizendo como se sente. Mostrar-me a razão por que o escolhi. Fácil, não é? – perguntou, sorrindo com genuína e quase pueril esperança.
Depois, os gritos. E, quando o choque da dor era demasiado, o desmaio. Era o mesmo de sempre, afinal. Ninguém cumpria o que prometia.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE O AUTOR
Nuno Amaral Jorge
Nuno Amaral Jorge nasceu em Lisboa, no ano de 1974. É jurista, fotógrafo amador e escritor freelance. É guionista de BD, publicou contos em várias antologias, dois romances e dois livros infantojuvenis. Destaca títulos como os romances As Três Mortes de Um Homem Banal e A Passagem, bem como o conto «Coelho Branco», publicado na antologia IN/SANIDADE, e com o qual ganhou Grande Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto – 2024.
Stephen King, Julian Barnes, Rosa Montero, Neil Gaiman e Alan Moore são algumas das suas referências.
Vive em Carnaxide com a sua companheira, os seus três gatos, e é um feroz defensor do maximalismo da liberdade de expressão, artística ou de qualquer outra tipologia.







