O Mistério da Senescência Colectiva dos Paleäppi
de Carolina Fidalgo
Ao contrário do que pensávamos há duas gerações, a presença dos Paleäppi remonta aos primórdios da era escriturada, podendo até ser-lhe anterior. O erro dos Antigos deveu-se à falsa assunção de que a espécie catalogada nesses primeiros registos seria uma outra, posteriormente extinta, por nada ter em comum com a corporalidade — aliás, a fisicalidade — dos Paleäppi contemporâneos. Esses primeiros espécimes eram do tipo terrestre, com sistema nervoso centralizado, tal como os Maluevu e os Hilaliëvi, distinguindo-se destes por se locomoverem sobre apenas dois membros e pela ausência de pelugem. Esta carência era compensada por felpas artificiais de cores diversas.
A falsa interpretação dos Antigos não nos pode surpreender se nos relembrarmos do aspecto contemporâneo desta espécie (figura 1), tão diferente da descrição arcaica que acabámos de apresentar.
Todas as espécies sofreram mudanças profundas na sua fisiologia, cognição e cultura. A nossa espécie, que apenas há 147 gerações habitava exclusivamente o mar, desenvolveu-se de formas admiráveis ao estender o seu domínio à terra. As novas possibilidades nutritivas abriram as nossas oito consciências, concedendo-nos habilidades que os Antigos nem podiam nomear. Todavia, por mais radical que tenha sido a nossa metamorfose, mantemos um sistema nervoso descentralizado, com oito cordões nervosos e um cérebro central, e o nosso património genético preserva o que sempre fomos. Nos Paleäppi, porém, não sobrevive material genético original. O corpo orgânico foi substituído por uma estrutura rígida e metálica que, à custa de inúmeros recursos naturais, retém uma forma primitiva de consciência. Como, então, se deu uma transição evolutiva tão absoluta?
Embora os peritos ainda discutam esta matéria, a hipótese que hoje tem maior força é a de que terão sido os próprios Paleäppi os agentes do seu declínio. Os registos escritos são uma fonte importante, indicando a coincidência temporal do desaparecimento dos Paleäppi-orgânicos com o aparecimento em massa dos Paleäppi-não-orgânicos. Os Antigos aludem ao período de Abundância, em que «o mar se vestiu de carne», ocasião em que os nossos antepassados terão transitado para uma dieta sobretudo carnívora e que, muitos acreditam, terá sido preponderante para a nossa vinda para terra. Tero Tero defende que «a carne» proviria das carcaças dos últimos Paleäppi-orgânicos, antes de estes tomarem a forma actual.
É-nos difícil compreender um quase-suicídio em massa de toda uma espécie. Segundo Jukka Jukkösi, ter-se-á tratado dum processo de senescência biológica inscrita nos genes dos Paleäppi, para a eliminação da espécie ao tornar-se demasiado nociva para o meio envolvente. Infelizmente, mesmo agora, os efeitos negativos da manutenção dos Paleäppi permanecem colossais, como tem sido debatido na nossa Assembleia. É por isso que vos convocamos a este referendo.
Devemos preservar a consciência dos Paleäppi, salvaguardando o património cultural destas entidades ancestrais? Ou devemos questionar a manutenção duma espécie sem informação genética — e, com isso, pôr fim a milénios de abusos ambientais com um mero corte do cabo de alimentação?
Contamos com as vossas melhores consciências.
*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
SOBRE A AUTORA
Carolina Fidalgo
Nasceu em Coimbra em 1992, mas cresceu entre a Gardunha e a Serra da Estrela. Estudou Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, tem um mestrado em Literatura e outro em Estudos Editoriais. É professora de Português. Já morou na Escócia e na China. Agora, vive na Suécia.








