Empatia
de Inês B. Lourenço
O amor de um pai pela sua filha é amoral, imoral. Não há mandamento, ensinamento, sistema ético que lhe ponha travão.
Sou professor de Filosofia há vinte anos. Apaixonei-me pela mãe da minha filha numa sala de aula da faculdade. Eu Assistente titubeante, ela Professora Associada fiduciosa. Amor ao primeiro olhar. Uma mistura magnífica, várias vezes repeti ao ouvido da minha mulher na maternidade.
A minha filha herdou de mim muitas características: o olhar, o nariz, o esgar, os dedos mendinhos das mãos ligeiramente retorcidos, o temperamento, o azar. Não era má pessoa, não era. Demasiado sensível? Já passámos essa fase de distorção dos factos. Foi uma mártir, uma figura digna de canonização.
O amor de um pai pela sua filha é amoral, imoral. Não há mandamento, ensinamento, sistema ético que lhe ponha travão, geme o imbecil, enquanto esgrimo o nome dela no seu peito.
Quantos intelectuais, quantos imbecis morais!, murmuro cauterizando-lhe as feridas. Não pretendo que renda a alma ao Criador, mas provocar-lhe sofrimento é necessário, imperativo. Amar como ela amou, sofrer como ela sofreu, sussurro-lhe, troçante, enquanto um líquido bruníneo lhe corre pelas pernas e vai desaguar no balde enferrujado no chão da cave.
O homem é uma corda entre o animal e o divino.
Não sou nenhum deus, tampouco um demónio (nunca estive no alto para cair), mas homem também já não sou, e qualquer animal arrepiaria os pelos do dorso se assistisse ao que inflijo a este infeliz.
Age de tal modo que a tua ação seja uma máxima universal.
Não, não me agrada Kant, neste momento. Duvido que quem contemplasse o que faço considerasse isto algo de universalizante. Gosto mais assim: age de tal modo que a tua ação se consubstancie no maior grau de felicidade. Viva Stuart Mill, zombo entredentes.
Para mim, o seu tormento é a minha exultação. A Reta Razão ignora-me, e a Nemesis pisca-me o olho. Todo o que sofre faz sofrer, e eu não sou exceção. O balde já está meado, terá de encher mais um pouco. Só assim ficarei satisfeito.
Acredito que o transformarei numa pessoa melhor. A Empatia, não nascendo connosco aprende-se. E eu sou o seu professor.
SOBRE A AUTORA
Inês B. Lourenço
Inês B. Lourenço nasceu para lá do Marão, mas não manda nada. O seu ano de nascimento é nome de filme, mas é avessa a qualquer odisseia espacial. Estudou Medicina, mas não era bem a cena dela. Tentou conciliar a pena com o bisturi, mas não é Camões para numa mão ter a lança e noutra a pena. É uma anarquista, mas é muito bem-comportada. Acredita que a escrita de ficção salva, mas não acredita na ficção autobiográfica. Promete que conhece outros conectores discursivos além de «mas».







