O Portão

de Alexandre Bernardo

 

O caminho por entre as vivendas era direito, largo e andamoso. O rapaz trilhava-o nos cinco dias da semana em que tinha aulas. Claro que outros carreiros havia que o levariam à escola, mas, além dos achegos antes ementados, era-lhe este deveras prazeroso pelo sossego que lá governava, bem como pela privança com a natureza que as sombras das árvores ladeiras e os chilreios dos pássaros lhe forneciam.

Só uma coisa lhe amargava o âmago: tinha uma vivenda — por sinal a mais baixa, a mais pequena e a mais velhinha da rua — um portão de correr que demeava esse lado da casa e que deixava os passantes devassarem um desquerido quintal. Era um portão branco, duma alvura suja, já gasta e puída, mas o que atormentava o rapaz não era o portão em si; era antes algo que acontecia sempre que passava diante dele. Começava a ouvir perto o som de alguma coisa que batia com força contra o ferro. E não era o vento, disso tinha a certeza. Assemelhava-se mais ao barulho dum bicho que estivesse por detrás do portão e que, volta e meia, esbarrava nele com possança.

Aquele som metia-lhe tanto medo que, por vezes, o cachopo se detinha no caminho, sem conseguir dar outro passo. Só após um fundo resfôlego, os pés começavam, enfim, a mexer-se, e o moço seguia devagarinho estrada fora.

Um dia, teve a afoiteza de se pôr em bicos dos pés, enquanto se encostava ao muro da vivenda para espreitar o que lá estava dentro. Ficou, contudo, desiludido: o quintal estava vazio. 

A desilusão, porém, depressa se tornou pavor. Mesmo nada vendo, ouvia ele bem pertinho aquele ruído, como o duma fera raivosa que, acima de tudo, almejasse sair daquela cadeia.

Certa vez, quando o rapaz, já a suar em bica, ia a passar de mansinho pelo portão, saudou-o alguém do começo da rua. Era um velho, que queria saber se o catraio tinha alguma encrenca ou algum embaraço. Respondeu-lhe o catraio, a muito custo, e com os olhos a pularem entre o homem e o portão, que não havia nenhum embaraço, estava apenas cansado. O idoso, todavia, deve ter dado pelo aperto em que estava o miúdo.

— É o portão, não é? Desde que o construíram, a ele e à casa, que isso acontece. Todos aqui sabem que é assim, mas ninguém sabe dizer porquê. Cá para mim, é um daqueles espíritos danados que malquer as pessoas, uma alma que ficou aí presa na construção e que se desenfada a amedrontar a gente que se abeira dela. O melhor é deixá-lo estar. Tens mesmo de passar por aqui? Pensa bem. Um menino como tu é uma grande tentação para um bicho destes… — E, com isto, voltou costas ao rapaz e foi à sua vida, meio falando meio rindo para si.

Nos dias que vieram após este encontro, escolheu o cachopo outros caminhos para ir à escola. Porém, cresceu-lhe no coração uma queimosa vontade de rever o portão branco e de escutar de novo o inesquecível barulho. A verdade é que o paleio do velho o acoroçoara: julgava assim perceber melhor a acendalha do que estava a acontecer e, desta feita, achava encolhido o seu receio. Com esse aconchego no coração, recomeçou a percorrer o trilho do costume.

No primeiro dia, encarou o portão fora de temores, ficando encantado quando reparou que o som tinha vindo a minguar ao longo do passeio. No segundo dia, mal ouviu o barulho. Ao terceiro, no entanto, quando estava a metade do portão, ressoou o maior estrondo que alguma vez lhe chegara aos ouvidos. O vedro pavor ateou-se a lume de palha. Parado e sem forças para levantar um pé, o rapaz dobrava e redobrava o desespero à medida que a troada, quais desalmados brados da suposta fera, ia dobrando e redobrando os seus estoiros. O som atingiu o galarim no comeios em que, de chofre, o portão se abriu. Os olhos arregalados do cachopo ameaçaram soltar-se da cabeça. Quis convencer-se de que fora obra duma cortante rajada de vento, a mesma que o abanou e lhe deu o viço para fugir.

Bem que correu o moço. Nunca olhou para trás. Mas a estrada parecia não ter fim. E o barulho cada vez mais se adentrava pelos ouvidos, mais o envolvia numa nuvem abafadiça e esmagadora. 

O rapaz continuou a correr. Continuou até poder. Até que deixou de ouvir, deixou de correr, deixou de sentir.

 

*Este texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945


SOBRE O AUTOR

Alexandre Bernardo

Nado em 1996, Alexandre Bernardo está sempre à cata de alargar o seu conhecimento e a sua compreensão do mundo. Embora formado em Matemática, é-lhe impossível ficar limitado aos números. Enquanto tenta em vão ler mais livros do que compra, gostaria de arranjar um tempinho para se entregar mais a fundo à escrita.

 


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