Desvendando o Mais Íntimo dos Terrores Contemporâneos

Um breve olhar sobre Na Raiz de Todos os Males.

As sombras do familiar infiltram-se no quotidiano, alterando a nossa perceção do comum e do íntimo. José Duarte e Sanio Santos da Silva foram tentar perceber como e porquê.

Por A. F. Viegas

Alexis F. Viegas é mestre em Estudos Comparatistas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com uma tese no âmbito dos Game Studies: “Analepsis and The Theatrics of Empathy in The Last of Us: Part II”. É também licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas pela mesma instituição. Em 2022, co-organizou a conferência “Nosferatu: 100 Anos de Terror” e co-editou a antologia homónima resultante (Edições Húmus, 2023). Actualmente, é co-editor da revista científica estrema (CEComp-FLUL) e encontra-se a preparar o seu projecto de Doutoramento.


Em 1839, já Edgar Allan Poe nos alertava de que o familiar está envolto em sombras que coabitam no quotidiano. Séculos adiante, José Duarte e Sanio Santos da Silva reuniram investigadores de diferentes países e percursos para nos mostrar que sombras são estas e porque persistem até hoje.

 

     «O que me perturbava tanto na contemplação da casa dos Usher?»
(Edgar Allan Poe, 1839; tradução livre)

 

Em The Fall of the House of Usher (1839), de Edgar Allan Poe, somos transportados para uma das primeiras e mais marcantes histórias no âmbito do terror doméstico, onde a decadência física da mansão da família Usher se interliga com a deterioração mental e emocional dos seus habitantes.     

À medida que o narrador reconta a sua incursão entre a familiaridade e a estranheza que permeiam tanto a casa quanto os seus ocupantes, as linhas que separam o comum, o conhecido e o sobrenatural desvanecem. A queda de Roderick Usher em loucura, a presença quase espectral da sua irmã Madeline e a resposta física da própria estrutura da casa ao estado mental dos residentes transformam o lar da família Usher num espaço desconfortável e inseguro.     

A atmosfera opressiva, as paredes em ruínas e o cruzamento entre o familiar, o doméstico e o estranho fizeram deste conto um marco da literatura gótica. Poe convida-nos a confrontar e a contemplar as sombras que persistem nos lugares, recantos e pessoas que definem a nossa conceção de «familiar». É precisamente desta potencialidade entre o íntimo e o estranho, onde as sombras do familiar sugerem as mais sinistras práticas, que Na Raiz de Todos os Males: Terror Doméstico no Século XXI (2023) emerge como uma antologia académica (mas não menos cativante por isso) sobre o terror doméstico nas produções audiovisuais contemporâneas. 

A coletânea de ensaios foi publicada pela editora portuguesa Caleidoscópio e editada por José Duarte e Sanio Santos da Silva — dois nomes notáveis dos Estudos Fílmicos em Portugal e no Brasil, respetivamente. José Duarte leciona na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e é investigador integrado no Centro de Estudos Anglísticos (CEAUL) da mesma instituição, contando já com uma longa carreira dedicada ao estudo da história do cinema, do cinema norte-americano e, mais recentemente, da ficção científica. Sanio Santos da Silva é professor assistente do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e o cinema irlandês tem sido o grande foco da sua investigação. 


Esta antologia luso-brasileira divide-se em duas partes e investiga as complexidades do terror doméstico, tecendo um longo e rigoroso manto científico que conecta a natureza íntima e, por vezes, contraditória do ambiente doméstico.


A primeira parte, com seis capítulos, reúne ensaios que exploram filmes de vários países (Brasil, Irlanda, Estados Unidos da América, México, etc.), todos unidos por um tema central: figuras femininas. Os temas abordados são vários e bastante abrangentes, desde maternidade, queerness, raça até identidades nacionais em filmes igualmente variados como: Crimson Peak (Guillermo del Toro, 2016), The Babadook (Jennifer Kent, 2014), The Hole in The Ground (Lee Cronin, 2019) e The Witch (Robert Eggers, 2015).

Entusiastas do gótico e/ou do cinema irlandês encontrarão aqui textos essenciais sobre estes temas, devidamente contextualizados em termos históricos, culturais e teóricos, com excelentes recomendações para futuras leituras e visionamentos. Contudo, o capítulo que mais recomendaria a todos os interessados pelo terror seria o quinto, intitulado «Hipérbole do Terror: As Boas Maneiras dos Monstros», da autoria de Gabriela Lopes. Este ensaio realiza uma exploração profunda, tanto narrativa e retórica quanto filosófica, sobre o próprio conceito de «terror». Lopes recorre a Aristóteles, Platão e Gilles Deleuze para conduzir o leitor numa viagem histórica e linguística sobre as origens e as ramificações do termo, que guia a análise do filme As Boas Maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2018).

Na segunda parte, com cinco capítulos, a antologia reafirma a sua diversidade geográfica e promove a transposição de fronteiras entre diferentes media. Esta secção começa com o contributo do Professor Fernando Guerreiro, um dos nomes incontornáveis dos Estudos Fílmicos em Portugal, que nos oferece uma perspetiva minuciosa sobre o cinema de terror japonês. Os capítulos subsequentes retornam ao contexto ocidental, passando por diversos tópicos, desde a videovigilância em Caché (Michael Haneke, 2006) e as relações de privilégio e poder em Get Out (Jordan Peele, 2017) às séries Servant (M. Night Shyamalan, 2019), From (Michael Mahoney, 2022) e Chilling Adventures of Sabrina (Roberto Aguirre-Sacasa, 2020).

O ensaio dedicado a esta última é da autoria de Daniela Coelho, investigadora prolífera no âmbito da ficção especulativa e editora convidada do próximo número da revista científica Messengers From The Stars: On Science Fiction and Fantasy, sendo um dos pontos altos de toda a antologia pelo carácter intermedia e interdisciplinar da sua abordagem. Em «O Terror Doméstico Revisitado: Chilling Adventures of Sabrina», Coelho conduz o leitor pela evolução de Sabrina enquanto personagem, desde a sua estreia na banda desenhada Archie nos anos 1960 até as iterações mais recentes, notavelmente a versão contemporânea de Roberto Aguirre-Sacasa que inspirou a série da Netflix, também de sua criação.

É de sublinhar, ainda, que um dos aspectos mais interessantes deste texto se prende com a exploração da dualidade de Sabrina como simultaneamente uma série de terror e teen drama, contextualizando-a em relação a produções contemporâneas que influenciaram o seu enredo, a sua estética e a sua caracterização, como Riverdale (Roberto Aguirre-Sacasa, 2017) e The Witch (Robert Eggers, 2015).

O terror doméstico, argumenta a autora, encontra particular expressão na mansão da família Spellman, dissecada no ensaio com rigor e detalhe. O capítulo espelha o potencial desta antologia, reafirmando a qualidade e a pertinência da argumentação e da abordagem intermedia que a caracteriza. 

Na Raiz de Todos os Males destaca-se como uma antologia fundamental para o estudo do terror doméstico contemporâneo, precisamente porque transcende fronteiras, áreas do saber e diferentes media.

A combinação de tradições cinematográficas e literárias, bem como a incorporação de perspetivas globais e abordagens intermedia, alinham-se com os objetivos e necessidades dos Estudos de Terror — além de serem um campo fértil a inspirações aterrorizantes e promoverem uma discussão crítica sobre produções de terror, valorizando-as nesse processo.


É de salientar que a coletânea é também de extrema importância para a esfera académica portuguesa, que carece de estudos sobre ficção especulativa e, mais especificamente, sobre terror.


No espírito de promoção da investigação portuguesa neste âmbito, aqui ficam mais duas produções recentes que demonstram a vontade dos investigadores portugueses em trazer o assunto para as Faculdades e Centros de Investigação nacionais, além de serem um complemento igualmente útil e estimulante a qualquer amante ou estudioso do terror: Nosferatu: 100 Anos de Terror, editado por mim e pela minha amiga e colega Patrícia Sá (CEComp-FLUL), e O Quarto Perdido Do Motelx – Os Filmes do Terror Português (1911-2006), coordenado por João Monteiro e Filipa Rosário (CEComp-FLUL).


Dada a ampla variedade de produções audiovisuais presentes nestas antologias, fica a sugestão para uma futura expansão deste trabalho com a inclusão dos videojogos — uma das maiores indústrias audiovisuais do século XXI e que será, sem dúvida, uma excelente adição.