Crítica a «Que o Inferno Pareça Aqui»
O novo livro de João Zamith.
Depois de «Coisas Ruins», Zamith volta a levar-nos para as ruas de Guimarães para nos mostrar que as tradições podem ser tudo menos simples.
Que o Inferno Pareça Aqui, de João Zamith, é o segundo livro do autor, passando-se em Guimarães durante as tradicionais Festas Nicolinas e na Noite do Pinheiro.
Tudo começa quando o corpo do ex-namorado de Júlia é encontrado, e o principal suspeito é o pai dela, Álvaro Pinto.
A história leva-nos a seguir os pontos de vista de diversas personagens, desde os outros elementos da família de Júlia aos amigos e aos inspetores que investigam o caso.
Estamos perante uma história que nos leva a questionar uma tradição que existe nesta cidade há séculos, embora ninguém saiba exatamente as razões pelas quais continuam a repeti-la. Uns acreditam que é uma tradição católica, outros podiam jurar que tem raízes pagãs. O que acontece, porém, é que o ex-namorado de Júlia não foi o primeiro a morrer durante as Festas Nicolinas. Em anos anteriores, e principalmente desde o início da pandemia, quando as Festas não puderam ser realizadas como se tinham vindo a realizar desde sempre, já tinha havido outras mortes.
Rapidamente nos apercebemos de que podemos estar a falar de algo muito para lá da tradição, de algo ligado ao sobrenatural.
Além disso, tal como acontecia em Coisas Ruins, um dos elementos mais interessantes é a forma de Zamith escrever os pontos de vista das personagens, evidenciando a forma como falariam e usando características dialetais para nos envolver ainda mais no ambiente de Guimarães, bem como socioletos para caracterizar diferentes faixas etárias. No início, pode ser um pouco difícil de nos ligarmos à história com estes diferentes tipos de linguagem, até por estarmos a falar de muitas personagens com pontos de vista únicos, mas é algo a que nos acabamos por habituar e que nos faz, realmente, entrar mais na história, identificando personagens pela forma como «falam».
É um ótimo livro para fãs de terror — que junta elementos de mistério, thriller, folclore e terror — e também para os fãs do autor, com algumas referências ao livro anterior, daquelas muito satisfatórias de apanhar.
Estamos perante uma narrativa que junta a tradição à atualidade, fazendo sempre um paralelo entre o que aconteceu e o que está a acontecer neste momento, em termos sociais e políticos, no campo das redes sociais e de como estas podem ser um meio de propagação de extremismos perigosos, numa crítica muito certeira ao estado atual da nossa sociedade.
Sendo esta uma crítica para o Páginas Dobradas, tenho a dizer que foram muitos os cantinhos que dobrei. Para mim, quantos mais cantinhos tenho dobrados, mais gostei do livro (e mais terror? Isso fica ao vosso critério).
GOSTASTE? PARTILHA!
Madalena Feliciano Santos
Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.





