Crítica a «E do Mar Vieram», de Raquel Fontão

Uma autora que rapidamente se tornou um must read entre autores portugueses.

Seres aquáticos, uma jornalista, militares e cientistas numa vila vedada ao público por receios de contaminação. O que poderia correr mal? Tudo.

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Laura Silva

Alguns de vocês poderão estar a perguntar-se: «mas esta não fez uma crítica desta autora há pouco tempo?» Não estão equivocados! A minha antepenúltima crítica foi sobre Nada Há a Temer, da mesma autora, que conseguiu o feito de publicar dois livros no mesmo ano com apenas um mês de diferença (sem dúvida que põe em perspetiva todos os momentos em que digo que não tenho tempo para escrever…).


Deixem que comece já por dizer que, contrariamente às minhas expectativas, eu AMEI este livro.


Pensei genuinamente que nada fosse ultrapassar o livro com as tradwives («esposas tradicionais»), mas enganei-me redondamente.
Como quase sempre que gosto de um livro, tenho dificuldade em decidir o que dizer. Especialmente quando os livros da Raquel se têm mostrado cada vez menos literais, mas com imenso potencial para o simbolismo — algum do simbolismo que encontro estará certamente lá, mas assumo que algumas coisas possam ser simplesmente da minha cabeça.
Pessoalmente, isso dá riqueza à minha experiência enquanto leitora; a autora conta-me uma história, alguns elementos são tão óbvios que mais parecem chagas na pele, mas depois existem certas passagens, momentos, expressões ou pausas que me transmitem um mundo de possibilidades interpretativas, enriquecendo a leitura. Talvez isto não agrade a toda a gente, mas é precisamente o que mais me intriga na literatura.
E do Mar Vieram tem, também, uma premissa muito clara: uma vila outrora submersa por um tsunami em 2030 fica descoberta devido à seca, sendo aparentemente populada por seres humanoides com características aquáticas, tão estranhas como as suas origens. Não faço ideia de onde a Raquel tirou esta ideia, mas parece que foi feita a pensar em mim.
Olívia, a nossa personagem principal, é uma jornalista colocada na vila pelo Governo, que tem como objetivo demonstrar à população que está tudo bem.
Ora, não está tudo bem, obviamente, ou não fosse isto um livro de terror, mas a verdade é que a obra começa quase com um tom de mero fascínio científico. Os aguados (nome dado aos seres humanoides) têm características que seriam de causar repulsa ou estranheza a qualquer pessoa, algo que de facto acontece com muitos dos cientistas e militares no local, mas a nossa personagem principal encontra neles, de imediato, características humanas que a levam a querer perceber as suas histórias.
Talvez devido ao fascínio da nossa personagem principal, eu própria desenvolvi esse interesse pelas criaturas e as suas origens; senti-me tão frustrada como a Olívia com os obstáculos que lhe eram impostos, e dei constantemente por mim a tentar criar ligações entre eventos ou significados obscuros em conversas.
Confesso que isso fez com o que o final, que não é verdadeiramente surpreendente, me tenha… surpreendido (eu sei que me contradigo na frase, OK? Aguentem-se!).


Como em todas as obras da Raquel Fontão, aquilo que vamos vendo das personagens à nossa volta é apenas a superfície.


As mentiras, as coisas que não aceitam, a culpa, está no fundo do mar, à espera do momento em que aquilo de que as personagem fugiam as atinja como um tsunami devastador. Também aqui consegui prever um pouco o que se passaria, mas gostei tanto da execução que não me chateou de todo ter a resposta antes de a obra ma dar.
O que mais adorei em E do Mar Vieram, no entanto, é tudo aquilo que não sei por completo.
Há uma clara conexão entre a história da nossa personagem principal, os aguados e o desfecho final, mas alguns detalhes ficam na obscuridade necessária para que cada leitor as possa interpretar como deseja.
Simultaneamente, não posso deixar de ver aqui um hino à maternidade, por muito retorcido que possa soar a quem leu o livro. Como não consigo explicar melhor este ponto sem spoilers, não me irei alongar, mas pensem no que acontece às personagens, a culpa que carregam, o desenrolar da história dos aguados, e uma linha surge ali, por muito macabra que possa ser.
À semelhança do que senti em Nada Há a Temer, esta obra tem vários fios condutores que permitem olhar para ela numa dimensão mais aprofundada; acho, genuinamente, que encontrámos o elemento que define a escrita de Raquel Fontão: há sempre uma história sob a superfície daquilo que ela nos conta. Há sempre tesouros enterrados na areia.


Talvez outros não tenham o mesmo interesse por esta obra, devido aos seus elementos mais «fantásticos», mas, como amante de ficção especulativa, não posso deixar de recomendar esta leitura a outros fãs. Permitam-se levar pela curiosidade. E deixem a vossa mente correr livremente.


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Laura Silva

Apaixonada por histórias desde 1992, é escritora nas horas vagas e pasteleira aos fins-de-semana. O gosto pela leitura deu muito jeito para a licenciatura em Direito, mas agora é constantemente abordada por amigos e familiares para consultoria jurídica gratuita. Extremamente traumatizada em criança pelo Cadeirudo, acabou por aprender a gostar de todas as facetas da ficção especulativa, que hoje se revela o seu género favorito.

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