A arte de Ana P. Dias
A ilustradora apresenta-nos a sua série «Monstrificatus».
Esta série de ilustrações baseia-se em frames e pósteres de filmes clássicos de terror, recriados com animais de companhia como protagonistas.
Ana P. Dias é natural de Leiria e trabalha em Lisboa. É formada em Pintura, ilustração e banda desenhada. Trabalha como ilustradora e também como monitora de serigrafia e professora no Ar.Co Centro de Arte. É apaixonada por demasiadas coisas que não cabem numa bio curta, das quais se destacam gatos (e animais em geral), terror/horror, ficção científica e livros, muitos livros.
“Esta ideia surgiu no seguimento de começar a fazer caricaturas de animais para eventos (começou com um evento de concentração de bulldogs franceses, do qual resultou uma série toda feita com esses cães). Eu já caricaturava pessoas e, como era comum pedirem-me para incluir animais, achei que, no contexto deste evento, faria sentido focar-me no membro de 4 patas das famílias.
Tal como faço para as pessoas, gosto de personalizar cada animal de acordo com o que os torna únicos e, para conseguir chegar ao maior número de pessoas, reuni vários temas populares (como ícones da música) e outros de gosto pessoal (como o terror).
Os desenhos apelaram muito às pessoas, comecei a receber muitas encomendas personalizadas e a ver que conseguia atrair muitas pessoas com gostos muito semelhantes aos meus. Estou a desenvolver uma série sobre ícones do rock e metal, por exemplo.
Por volta dessa altura, surgiu através da (agora extinta) loja Legendary Books, um convite para ir desenhar ao vivo no MOTELX e, durante o evento, também podia vender prints, zines e crachás. Foi neste contexto que a ideia de fazer mais figuras de terror (que já tinha na série de bulldogs franceses) passou de vez ao papel. As pessoas gostaram muito dos desenhos, riram-se com a mistura, e eu fiquei muito contente com o feedback e por poder descobrir mais pessoas com o mesmo gosto por estes filmes clássicos.
Um dos critérios que usei (e uso) foi fazer imagens de filmes que vi de facto — ainda faltam incluir muitos, como o Carrie ou o Braindead. Sobre o processo de construção das imagens, onde passo mais tempo é na fase de escolha dos «modelos». Procuro animais com características físicas que se assemelham aos atores ou atrizes dos filmes e gosto de escolher imagens de referência que tenham a expressão certa. Como gosto de manter os animais «animais» e não os antropormorfizo, quando precisam de estar a segurar objetos tenho de pensar de que forma é que eles segurariam um objeto (como uma faca) dentro das limitações anatómicas. Também gosto de incluir o fator cómico e toques autobiográficos — no caso do persa que usei para ser a Reagan, baseei-me numa gata persa da família que tinha um mau feitio muito particular; os modelos para o Chucky e Tiffany são dois gatos de um casal meu amigo; o poster do Christine inclui referências a um meme popular, etc. O mais difícil de criar foi o póster do Halloween, porque queria um frame reconhecível, uma vez que o póster do primeiro filme não tem a personagem completa. O animal eleito tinha de funcionar, e eu queria um gato, para usar a piada de que os gatos estão sempre secretamente a planear matar-nos. O Hellraiser é um dos meus favoritos, porque adoro todos os detalhes da personagem do Pinhead, e o gato Sphynx encaixa como uma luva.
O meu percurso passou por todas as várias fases típicas de millenial — o boom do anime e manga dos 80 e 90, a influência da BD norte-americana, da qual sempre gostei mais da produção indie, de anti-heróis ou de personagens mais negras, mas desde criança que sempre me atraíram histórias mais obscuras, terror e paranormal.
Nunca me colocaram restrições para o que via na TV, e então, muito cedo (e por influência do meu irmão seis anos mais velho), colei em coisas como os X-files; O Reino, do Lars Von Trier (que mantenho como uma das minhas influências principais); os livros e série dos Goosebumps e todos os filmes de terror nos quais eu e o meu irmão podíamos pôr as mãos — era rotina irmos todas as semanas ao clube de vídeo e víamos tudo o que fosse terror, até mesmo aqueles muito maus. Na adolescência, mergulhei mais na BD de produção punk e contracultura (grande influência da revista Chiclete com Banana) e, a partir daí, fui explorando e descobrindo mais coisas, por iniciativa própria ou através de amigos.
Ingressei em Design de Moda com o objetivo de trabalhar em figurino ou criar uma linha de roupa alternativa. Acabei por deixar o curso por concluir e, mais tarde, tirei a licenciatura em Pintura e Multimédia. Pela minha maneira de ser, e por uma questão de necessidade, sempre procurei ser versátil e ter a possibilidade de poder trabalhar em muitas coisas e, então, já fiz (e faço) muita coisa, desde eventos, ilustração, animação, murais, publicidade, assistente de atelier e aulas. Para ajudar a solidificar o meu trabalho, tirei o curso de BD e Ilustração do Ar.Co, onde acabei a trabalhar no departamento de gravura como monitora e professora até hoje. Sou daquelas pessoas com bicho carpinteiro, que gostava de estudar até ao fim da vida se pudesse — também adoraria tirar um curso de efeitos especiais e maquilhagem de terror, mas o dia só tem 24 h e tem de ser uma coisa de cada vez. Sou obcecada por gatos e um dos sonhos de gaveta é ter um cat cafe com centro de adoção, biblioteca e espaço de eventos.”




















