Crítica a «As Sombras de Lázaro», de Pedro Lucas Martins
Uma obra intemporal que tanto se lê à lareira como no pico do verão.
Com pouco mais de 200 páginas, Pedro Lucas Martins explora o conceito de culpa e justiça de forma realista e crua, deixando o leitor desconfortável da melhor maneira.
Se leram a sinopse, poderão concluir que As Sombras de Lázaro foi a minha leitura de Natal — e estariam perto da verdade. Terminado literalmente quatro minutos antes da meia-noite do dia 31 de dezembro, foi o meu último livro do ano (oiçam, eu deitei-me às 00 h 15, OK? Mentalmente, tenho 93 anos), mas seria, realmente, uma leitura a recomendar para a época natalícia, pelo menos para quem gosta de Natais sangrentos.
A história segue Lázaro, um homem que esteve dois anos num hospício por uma doença quase inexplicável, e que regressa a casa pela altura do Natal, julgando-se recuperado.
Naturalmente, existe uma explicação para a sua saúde debilitada, um segredo que vai sendo desvendado ao leitor através da interação com três figuras aterrorizantes.
Se isto vos soa a um conceito algo familiar, a mim também: provavelmente estarão a criar algum paralelismo com Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Atrevo-me a dizer (sem ter falado com o Pedro sobre isto) que poderá haver ali alguma inspiração no clássico — quase como se estivéssemos a ler a versão de terror de Um Conto de Natal.
Não quero com isto dizer que estamos perante a mesma história, porque tal não é verdade. O conceito em si faz lembrar, mas As Sombras de Lázaro é uma entidade própria, com um desenvolvimento totalmente distinto e uma exploração bem mais dramática do que o conto de Dickens.
Ainda que ambos explorem o caráter humano, a obra de Pedro Lucas Martins é, na minha opinião, muito mais realista não só a dissecar a culpa humana como as consequências das nossas ações. Não é uma leitura leve no que diz respeito ao conteúdo, porque existe alguma simbologia ao longo da história que nos deixa a matutar, aspecto agravado por descrições algo perturbadoras.
É um livro que nos engana ao longo da leitura, levando-nos a pensar em Lázaro como um pobre infeliz que teve o azar de ser confrontado com «o mal», e que termina de forma brutal, após o escalar de uma tensão constante desde a primeira à última página.
É uma abordagem crua (e cruel) do ser humano, mas também dos demónios interiores de cada um de nós, que são infinitamente piores do que aqueles que nos assombram as casas.
Não é um livro «justo», mas a culpa é um parasita que em nada se importa com a justiça.
Se há uma crítica negativa a fazer à obra é que, por vezes, as descrições conseguem ser ligeiramente densas. Não é algo que cause entrave à leitura, mas poderá não ser para todos os gostos. Apesar disso, senti que havia um belo equilíbrio não só ao longo da escrita, mas também na dimensão da obra, tornando-a facilmente leitura de um dia.
Ainda que não seja recomendável para os fracos de estômago, é sem dúvida uma obra de referência no terror português, que dificilmente cai no esquecimento, mesmo após a última página.
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Laura Silva
Apaixonada por histórias desde 1992, é escritora nas horas vagas e pasteleira aos fins-de-semana. O gosto pela leitura deu muito jeito para a licenciatura em Direito, mas agora é constantemente abordada por amigos e familiares para consultoria jurídica gratuita. Extremamente traumatizada em criança pelo Cadeirudo, acabou por aprender a gostar de todas as facetas da ficção especulativa, que hoje se revela o seu género favorito.








