Sustinhos — «Troll», de Frances Stickley
Uma história que ensina a «trollar» o mau humor.
Debaixo de uma ponte, numa floresta longínqua, vive um troll maldisposto. Não quer ser importunado, mas há sempre animais que perturbam o sossego. Então, ele berra-lhes e insulta-os para mantê-los à distância. O que acontece quando um coelho destemido não arreda pé e se dispõe a escutá-lo? É tão desagradável quando isso acontece.
Recomendado para 4+
Sabem quando acordamos com o pé esquerdo, mas temos de fazer coisas e ver pessoas? A vida não para, não é? Há dias — curiosamente, segundas-feiras — em que nos sentimos pessimamente.
Desconversamos. Somos antipáticos com quem tem a infelicidade de cruzar o nosso caminho. O monstro desta história sente-se assim. Quem nunca teve dias maus que atire a primeira pedra. Há alturas em que somos todos trolls.
O nosso amigo peludo e laranja acha-se feio. Olha-se ao espelho e vê um nariz verde ranhoso e uma cara horrorosa. Como poderia ele ter disposição para conviver ou conhecer animais da floresta com esta aparência? É compreensível que se tenha isolado debaixo de uma ponte.
A cena repete-se várias vezes. O monstruoso Troll só quer que o deixem em paz — até colocou placas a dizer «fora daqui» e «perigo» à entrada —, mas os animais não fazem caso. Portanto, teve de encontrar uma solução mais drástica: insultar.
Protegido pelo anonimato, o Troll sentiu-se invencível nas ofensas e nasceu dentro dele a coragem cruel de gritar impropérios cada vez piores:
«Coelho fedorento!
Andor, orelhudo! Chô! Desaparece!
Cheiram todos a chulé! Mas que fedor!»
Ele acreditava que nunca seria responsabilizado pelo que dizia. E, durante cem anos, foi bem-sucedido. A fama dos insultos afastou a maior parte dos animais.
Um dia, porém, um coelho especial teve de passar pela ponte e fez o Troll perceber que a sensação de inferioridade que sentia e o ciclo de afrontas que iniciara podiam ser alterados de uma forma muito simples. A empatia consegue abrir fissuras até mesmo nos comportamentos mais rígidos.
O ilustrador Stefano Martinuz reforça visualmente a dualidade entre ameaça e vulnerabilidade. O Troll é grande, mas não assustador, o que faz com que o achemos só um pouco antipático. A dada altura na história, desenvolvemos uma grande simpatia pelo monstro. A paleta de cores, a composição exagerada e a expressividade das personagens contribuem para suavizar a mensagem desta história.
Contada por Frances Stickley e publicada pela Porto Editora, a história de Troll aborda com leveza o azedume e a agressividade do protagonista. A partir de situações inesperadas e um tanto ou quanto cómicas, os leitores trabalham emoções, a linguagem, e aprendem a desarmar um comportamento hostil.
Neste livro infantil, há conselhos valiosos que valem a pena emoldurar. Fazer ouvidos de mercador aos trolls da nossa vida continua a ser uma estratégia bastante eficaz.
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Marta Nazaré
Marta Nazaré, nascida em Lisboa, a 5 de março de 1981, é formada em Letras e Tradução de Inglês. Dedica-se a tempo inteiro à tradução de livros infantojuvenis e à legendagem de filmes e séries.
Descobriu o terror em tenra idade na papelaria do bairro que vendia a coleção «Arrepios», de R. L. Stine. Ainda hoje, o terror infantojuvenil é o seu género preferido.









