Sustinhos «Guia Prático para Cuidar de Demónios», de Christopher Moore

É difícil libertarmo-nos dos nossos próprios demónios.

Há décadas que Travis O’Hearn está vinculado, contra a sua vontade, a uma criatura voraz chamada Catch. A sua busca pela libertação, nesta comédia sobrenatural, leva-o à cidade costeira de Pine Cove, na Califórnia, onde não faltam personagens excêntricas em situações absurdas. Bem-vindos ao caos demoníaco criado por Christopher Moore. 

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Marta Nazaré

Recomendado para 16+

Travis não andava à procura de um demónio de estimação. Nem de poder. Muito menos de uma aventura sobrenatural. Tudo aconteceu por acaso quando dois candelabros foram parar às suas mãos. Desde então, não envelhece e tenta desesperadamente desfazer o feitiço. Que vos soe campainhas de alarme quando avistarem um objeto esquecido num transporte público. É assustadoramente fácil a forma como, de repente, Travis se vê a cuidar de um demónio que não lhe obedece e só pensa em devorar os habitantes de Pine Cove. Para que serve termos um demónio, afinal? Só se for para dar trabalho e muitas dores de cabeça.

Tirem daí o sentido se acham que este livro vos traz dicas de como cuidar de um demónio da «vigésima sétima ordem». Catch, tal como todos os seres demoníacos das histórias que já lemos, é imprevisível, glutão e vê a cidade de Pine Cove como um «buffet de quatro estrelas». Aqui, neste guia que de prático não tem nada, o leitor encontra-se perante uma sucessão inesperada de episódios grotescos e anedóticos. O título é bem-sucedido em atrair-nos para esta armadilha e enclausurar-nos também na dependência perigosa entre Catch, a mascote do Inferno, e Travis, a sua ama-seca involuntária. Mas é exatamente este tipo de história desastrosa que o autor Christopher Moore adora escrever.
E esta dinâmica entre cuidador e criatura é apenas uma pequena parte do absurdo desta sátira social criada por Moore. Por trás de acontecimentos cómicos, num ambiente de sitcom surreal entre várias personagens-tipo — bêbados, neopagãos, sedutores falhados, figuras marginais e caricaturais —, o autor permite-nos espreitar vícios ainda muito presentes na sociedade atual. No consumismo, egoísmo e fuga das responsabilidades, cada personagem reage à sua maneira, criando uma teia de episódios paralelos e complementares da narrativa principal: Travis e o seu demónio.
Guia Prático Para Cuidar de Demónios, traduzido por Leonor Bizarro Marques e publicado pela Gailivro, é uma leitura de ritmo rápido com tanta coisa a acontecer que, por vezes, é fácil perder o fio à meada.
Funciona como uma comédia negra que se disfarça de fantasia urbana disparatada. Magia, demónios e djinns andam de mãos dadas num cenário contemporâneo de loucura.
É ideal para jovens leitores familiarizados com uma linguagem explícita e um conteúdo mais adulto.
No fundo, é uma sátira sobre a amizade, a responsabilidade e a consequência de termos de pagar, durante um século, por um erro cometido na juventude.

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Marta Nazaré

Marta Nazaré, nascida em Lisboa, a 5 de março de 1981, é formada em Letras e Tradução de Inglês. Dedica-se a tempo inteiro à tradução de livros infantojuvenis e à legendagem de filmes e séries.
Descobriu o terror em tenra idade na papelaria do bairro que vendia a coleção «Arrepios», de R. L. Stine. Ainda hoje, o terror infantojuvenil é o seu género preferido.

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