Sustinhos «O Papão no Desvão», de Ana Saldanha

Papão: vilão assustador ou inquilino mal compreendido?

Sofia não gosta de ir para a cama. Para chegar ao quarto, tem de passar por um desvão — e é lá, naquele sítio escuro, que vive um papão. Ele é feio. Tão feio que a imaginação da menina amplia o medo dia após dia, tornando-o num grande problema.

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Marta Nazaré

Recomendado para 6+

Um papão é sempre feio e mau, certo? É o que se diz. Mas será mesmo assim?

O medo irracional do desconhecido — do que é diferente, do que não conseguimos nomear — molda-nos desde sempre. O medo é um sinal de que precisamos de nos proteger, e os monstros do universo infantil foram criados para manter as crianças em segurança, mas já não têm o mesmo poder. A sua função foi mudando com o tempo. Vivemos agora numa era de pequenos leitores que questionam. E, quando se cansam de sentir medo, respiram fundo, enchem-se de coragem e enfrentam o que os perturba.
Também Sofia, a protagonista desta história, farta de recear o que espreita no escuro do desvão, decide um dia enfrentar o monstro feio. E é nesse confronto que Ana Saldanha encontra a forma perfeita de dar corpo físico ao medo. Sem torná-lo uma ameaça, nem ridicularizá-lo, a autora permite que o objeto do medo dialogue com a criança.


Aqui, na segurança deste livro, o desconhecido ganha uma forma menos assustadora. O papão é feio, sim, mas as aparências não refletem o que se encontra no interior. E esta é uma das maiores aprendizagens deste livro.


A linguagem rimada e as ilustrações de Yara Kono — que reforçam o jogo entre sombra e luz, medo e descoberta — iluminam aquilo que assusta. O desvão, espaço liminar entre o visível e o oculto, funciona como metáfora para aquilo a que o leitor criança ainda não consegue dar um nome, mas que vai aprendendo a enfrentar.
Ana Saldanha oferece uma obra breve que assenta na vertente literária que não subestima o leitor mais novo e usa a ficção para tocar nos pontos sensíveis da existência humana. O medo é um processo natural de crescimento. Temos todos de aprender a lidar com ele e superá-lo.
Publicado pela Caminho e integrado no Plano Nacional de Leitura, O Papão no Desvão é um livro ideal para leituras partilhadas e uma ferramenta eficaz para conversar sobre medos, imaginação e coragem.
Todos temos um desvão — físico ou mental — onde guardamos tudo o que preferíamos não ter de enfrentar. Está na hora de nos aproximarmos desse recanto escuro e de chamarmos o papão para uma conversa séria.

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Marta Nazaré

Marta Nazaré, nascida em Lisboa, a 5 de março de 1981, é formada em Letras e Tradução de Inglês. Dedica-se a tempo inteiro à tradução de livros infantojuvenis e à legendagem de filmes e séries.
Descobriu o terror em tenra idade na papelaria do bairro que vendia a coleção «Arrepios», de R. L. Stine. Ainda hoje, o terror infantojuvenil é o seu género preferido.

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