OBSESSION, um filme de Curry Barker
Acho que temos, finalmente, o filme de 2026.
Regozijem. O silêncio terminou. A sessão da noite está de volta.
Foram tempos difíceis. Um deserto árido de mediocridade nos cinemas de terror. Alguns bilhetes de cinema desperdiçados. Tempo mal-usado. Pipocas que quase mais valia serem rançosas e do dia anterior.
Mas eis que maio se aproximou do fim e nos trouxe OBSESSION.
Não falaremos da tradução do título, obviamente, porque já sabemos que uma coisa com uma tradução tão literal iria ganhar um subtítulo ridiculamente óbvio. Vamos restringir-nos às coisas boas, que são, na realidade, a totalidade do filme em questão.
Já sei que os críticos entre nós se vão revoltar e dizer que a premissa de Obsession é uma meia que cheira a suor de pés cansados que Curry Barker desencantou por entre o cotão debaixo de uma cama qualquer. Abençoada meia.
Um desejo de amor corre terrivelmente mal.
É só isto.
O Game of Thrones e as Wiccas desta vida já nos ensinaram a não começar um casamento com um rapto, mas aparentemente as personagens deste filme não devem estar a par das lições universais.
One Wish Willow.
Uma bugiganga colecionável de uma loja esotérica.
Um amor não correspondido e um homem sem espinha dorsal.
O que poderia correr mal, não é?
Pois é. Nós sabemos o que poderia correr mal: tudo.
Estranhamente produzido pela Blumhouse, nascido das mãos de um americano, Obsession assemelha-se mais a um filme de terror australiano, devido à facilidade com que infesta o tecido subcutâneo, entrando pelos olhos e ganhando terreno com o domínio do campo emocional do espectador. É… rastejante.
Vocês sabem que nada cativa mais a vossa redatora do que filmes-cocktail de saúde mental, relações tóxicas e terror psicológico, onde o gore existe apenas para embelezar o deteriorar comportamental de personagens complexas e dinâmicas. Se misturarmos nisto um elenco pouco conhecido, mas que surpreende, temos a lotaria cinematográfica. O resultado é só um: eu andar meses a falar do filme até surgir outro que cumpra os mesmos requisitos e ultrapasse o seu antecessor, ou pelo menos lhe corresponda.
Michael Johnston faz um excelente papel de homem-gelatina, e Inde Navarrette assume-se como uma potencial scream queen que deveria ser escolhida para o próximo filme dos irmãos Philippou. Desde a mímica fácil, às expressões emocionais, à forma como move o corpo para aterrorizar, Navarrette ameaça entrar nas noites do espectador em formato pesadelo: looks like a cinnamon roll, could actually kill you — identifico-me.
Obsession é dos filmes mais baratos nos últimos 17 anos a tornar-se um sucesso de bilheteira, com um orçamento de apenas 750 mil dólares, arrecadando, em 48 horas, mais de 16 milhões. É daqueles que vai dar que falar.
A minha sugestão? Corram para o cinema, escolham bem a sessão ou levem clorofórmio para adormecer aqueles clientes mais inoportunos do grande ecrã; garantam a vossa sessão serena, para se embrenharem no filme. Há muito que não era abençoada com uma sala de cinema cheia, mas silenciosa, como quando vi Obsession, e isso resultou em reações genuínas e altamente envolvidas com o enredo.
Não fazia tantos esgares de sofrimento desde que arranquei os dentes do siso.
Ainda guardo algumas esperanças para filmes como Hokum, mas as expectativas, que até abril eram muito baixas para o cinema de terror, acabaram de subir bastante. Boa sorte aos concorrentes.
E bons visionamentos para os leitores.
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Maria Varanda
Diz-se que nasceu em Portugal em 1994, pelo menos nesta reencarnação. Quando a terceira visão está alinhada, brotam ideias na sua mente que a inquietam e tem de as transcrever para o papel para sossegar o espírito. Chamam-lhe imaginação, mas se calhar as ideias vêm de outro lado, e Maria serve apenas de meio de transmissão. Procura-se quem queira ouvir a mensagem.





