Recomendações de leituras para junho

Livros de terror escritos por mulheres.

Um livro de uma autora portuguesa e um livro sobre como é viver num mundo pós-apocalíptico.

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Madalena Feliciano Santos

Para junho, trago duas recomendações.

A primeira é um dos novos livros da Raquel Fontão, Nada Há a Temer. Aqui, seguimos Teresa Mendonça, uma escritora convidada a passar uns dias numa cabana com a sua agente literária, na propriedade das irmãs Lia e Sara. Tudo parece normal, até que os animais da quinta começam a ficar doentes.  Começamos, desta forma, a perceber que aquela família não é assim tão perfeita. O final faz-nos questionar tudo o que lemos até àquele momento, deixando abertas várias interpretações, quase nos levando a querer reler o livro para tentar encaixar todas as peças do puzzle. É uma história com um ritmo rápido e desconfortável, onde temos um pouco de tudo: gore (não comam a ler isto), suspense, terror psicológico e a perda de controlo sobre nós mesmos e sobre o nosso corpo.

A minha segunda recomendação é um livro que se passa num mundo distópico, onde, tal como a narradora, nunca sabemos exatamente o que se está a passar. Falo de Eu Que Não Conheci os Homens, de Jacqueline Harpman.

Nesta história, um grupo de mulheres encontra-se aprisionado, vigiado por guardas masculinos que nem sequer comunicam com elas. A narradora é a mais nova entre todas, não se lembra do mundo antes daquela prisão. Isto faz com que, na maior parte das vezes, não se consiga identificar com aquilo que as outras discutem sobre o «antes», o que a leva, de certa forma, a não se sentir humana, nem mulher. É daqueles livros em que, quando nos estamos a habituar a ver as personagens em determinada situação, tudo muda, levantando ainda mais questões sem que nenhuma das anteriores seja respondida.

Lemos sobre uma rapariga a quem foram retirados a cultura e o conhecimento, que está isolada de tudo, mesmo nos momentos em que se encontra com as outras mulheres, e que, mesmo assim, se torna a personagem que mais faz por ela e pelas outras, e pela qual sentimos imenso. É um livro sobre o que se faz da vida que nos é dada, mesmo num mundo pós-apocalíptico, que nem sabemos se continua a ser a Terra. No final, muito é deixado em aberto, incluindo a questão de como é que estamos a ler esta história.


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Madalena Feliciano Santos

Madalena Feliciano Santos nasceu em 2001, em Lisboa. A partir do momento em que leu The Shining, nunca mais largou o terror, estreando-se como autora na antologia Sangue Novo, em 2021, com o conto «Sonhei com uma Linha Vermelha». Frequenta o Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a trabalhar, sobretudo, sobre a tradução de literatura de terror.

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