«O Meu Amigo Freddy Krueger», por André Murraças

O icónico antagonista da série Pesadelo em Elm Street está no centro desta peça de teatro.

André Murraças traz-nos um one man show sobre como os monstros podem ser guias, abrigos e companheiros para vida.

Avatar photo
Pedro Lucas Martins

Escrito, interpretado e encenado por André Murraças, O Meu Amigo Freddy Krueger é um solo de teatro, com base na adolescência do autor.


A peça transporta-nos para os anos 90, sendo repleta de referências da década, focando-se no refúgio que os filmes de terror podem oferecer perante as agruras e desilusões do mundo real.

No Auditório Municipal António Silva (AMAS), gerido pelo teatromosca, o Casal da Fábrica pôde não apenas ver a peça, mas também assistir a uma posterior conversa com o autor, que a contextualizou ainda mais.

Como produto dos anos 80 e 90 que sou, posso dizer que o Freddy Krueger também terá sido o vilão que mais me marcou. Assim, a ideia de um espetáculo centrado na criação de Wes Craven pareceu-me de imediato bastante apelativa. A peça, no entanto, é muito mais do que uma viagem nostálgica aos bons terrores acarinhados pelos fãs de Pesadelo em Elm Street.

Seguindo os volumes da saga cinematográfica, percorremos outros horrores muito mais reais: o bullying, a homofobia, o isolamento e o sentido de não pertença. O relato entrosado, honesto e vulnerável de André Murraças tem o poder de nos transportar para momentos negros da sua vida, mostrando como a ficção de terror — neste caso, personificada pelo famoso assassino com uma luva de lâminas — pode servir como escape e terapia.
Todos os apreciadores do género, em maior ou menor medida, sabem reconhecer nos monstros o poder ou a liberdade que gostariam de ter, assim como a sua própria natureza marginal. Eu sei que reconheço. Tive, porém, a sorte de encontrar outros como eu, porque o terror também agrega, é comunitário, é potenciador de relações fortes, verdadeiras e duradouras. Todos os monstros precisam de uma casa e de amigos com quem a partilhar.


Saí desta peça com a sensação de que André Murraças fez o arco do herói. Passou por diversas tribulações para se tornar livre, para enfrentar os seus medos, sujeitando-se a outros, encontrando o seu caminho, resultando numa peça que, por todos os seus terrores, tem uma distinta mensagem de esperança.


Nos filmes de Pesadelo em Elm Street, os sonhos matam. Mas pergunto-me o que seria de nós sem a ajuda desses pesadelos.

GOSTASTE? PARTILHA!


Avatar photo
Pedro Lucas Martins

Pedro Lucas Martins nasceu em 1983, em Lisboa. Desde aí, não se lembra de uma altura em que não gostasse de terror.
Com estes gostos, preocupou toda a gente à sua volta. Naturalmente, insistiu e venceu-os pelo cansaço.
Agora, entre outras coisas, escreve e edita ficção de terror, tendo sido esta reconhecida com o Prémio António de Macedo (2018) e com o Grande Prémio Adamastor da Literatura Fantástica Portuguesa (2020). Em março de 2022, cofundou a Fábrica do Terror, onde desempenha a função de editor literário.

Outros artigos do autor

Privacy Preference Center