Entrevista a André Murraças

O criador deste solo de teatro, centrado na icónica personagem de Pesadelo em Elm Street, fala-nos do que se vê em palco e do que está por trás da cortina.

Fotografia: Nicole Sanchez


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Pedro Lucas Martins

1) Como surge a ideia de escreveres esta peça de teatro, onde falas a solo sobre a tua juventude e adolescência no contexto da saga Pesadelo em Elm Street?

A ideia nasceu da vontade de olhar para trás e perceber porque é que determinadas obras nos marcam tanto. Durante muito tempo, pensei que a minha relação com o Pesadelo em Elm Street era apenas a de um fã de cinema de terror. Só mais tarde percebi que aqueles filmes estavam profundamente ligados à forma como vivi a adolescência, às minhas inseguranças, aos meus medos e à procura de identidade. A peça acabou por surgir desse cruzamento entre memória, autobiografia e cultura popular. O Freddy Krueger funciona quase como um guia para revisitar esse período da minha vida.

2) Que importância atribuis ao terror nos teus anos formativos, numa época tão crítica da tua vida?

O terror foi um espaço seguro para enfrentar medos reais através da ficção. Há qualquer coisa de muito libertador em ver o medo representado, exagerado e transformado numa história. Enquanto adolescente, isso ajudou-me a dar nome a ansiedades que nem sempre conseguia explicar. O terror nunca foi apenas entretenimento; foi uma forma de imaginar que era possível sobreviver ao pior e continuar em frente.

3) O que achas que, para ti, destacou o Freddy Krueger de outros ícones de terror?

O Freddy é uma personagem profundamente inquietante porque invade o único lugar onde ninguém se pode proteger: os sonhos. Não há refúgio possível. Mas, ao mesmo tempo, tem uma dimensão teatral muito forte, quase performativa. Há humor, excesso, crueldade e uma presença muito carismática. Essa mistura fascinava-me. Não era apenas um monstro; era uma figura impossível de ignorar, que transformava o medo em espetáculo.

4) A peça fala-nos de violência, de vulnerabilidade, de um caminho para a aceitação. Como é a experiência de partilhares com os espectadores algo tão pessoal?

É simultaneamente assustador e libertador. Há sempre um risco quando se leva para palco material tão íntimo, porque deixa de nos pertencer apenas a nós. Mas o teatro tem essa capacidade de transformar uma experiência individual numa experiência coletiva. O que mais me emociona é perceber que, mesmo quando estou a falar da minha história, muitas pessoas reconhecem fragmentos da delas. É nesse encontro que a peça realmente acontece.

5) Durante a peça, referes o facto de teres encontrado um sentimento de pertença no teatro. Também encontraste, em algum ponto, uma comunidade dentro do género do terror?

Sem dúvida. O terror tem uma comunidade muito generosa e apaixonada. Durante muitos anos, senti que havia pessoas que olhavam para este género com algum preconceito, mas quem gosta de terror sabe que há muito mais do que sustos ou violência. Há criatividade, humor, comentário social e uma enorme diversidade de olhares. Encontrar outras pessoas que partilhavam esse entusiasmo fez-me sentir menos sozinho e ajudou-me a perceber que os nossos gostos também podem ser uma forma de pertença.

6) Qual é a principal mensagem que gostarias que as pessoas levassem desta peça?

Gostava que as pessoas saíssem da sala a pensar que aquilo que nos assusta também pode ser uma ferramenta para nos conhecermos melhor. Os monstros mudam de forma ao longo da vida, mas todos temos os nossos. A peça não pretende oferecer respostas nem superar o passado de forma definitiva. Interessa-me mais mostrar que podemos olhar para as nossas feridas com alguma ternura e que, às vezes, as histórias que mais nos marcaram acabam por nos ajudar a compreender quem somos.

 

Biografia

 

Nascido em 1976, André Murraças é licenciado em Realização Plástica do Espectáculo pela Escola Superior de Teatro e Cinema, mestre em Cenografia pela Hogeschool voor de Kunsten (Utrecht) e mestre em Ciências da Comunicação pela FCSH.

Após cinco anos como redator publicitário, tornou-se guionista de televisão, integrando a escrita das telenovelas Mar de Paixão e Rosa Fogo, nomeada para um Emmy. Desenvolve igualmente atividade como dramaturgo, encenador, cenógrafo, realizador e autor, com um vasto conjunto de espetáculos e textos publicados, vários deles editados pela Cotovia/Artistas Unidos. Em 2023, recebeu a Bolsa Literária para Teatro da DGLAB e venceu a III Bolsa de Residência Literária em Madrid. Foi distinguido por três vezes com o prémio O Teatro na Década (CPAI) e representou Portugal, por duas vezes, na Bienal de Jovens Criadores da Europa e Mediterrâneo.

É autor e realizador das webséries Desabafos e Barba Rija, e criador dos projetos O Museu Fora do Armário e Queerquivo, dedicados à memória e cultura LGBTQIA+ em Portugal. A revista Mini Internacional destacou-o como um dos mais relevantes autores da sua geração.


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Pedro Lucas Martins

Pedro Lucas Martins nasceu em 1983, em Lisboa. Desde aí, não se lembra de uma altura em que não gostasse de terror.
Com estes gostos, preocupou toda a gente à sua volta. Naturalmente, insistiu e venceu-os pelo cansaço.
Agora, entre outras coisas, escreve e edita ficção de terror, tendo sido esta reconhecida com o Prémio António de Macedo (2018) e com o Grande Prémio Adamastor da Literatura Fantástica Portuguesa (2020). Em março de 2022, cofundou a Fábrica do Terror, onde desempenha a função de editor literário.

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