«Saccharine» (2026)
Um filme de Natalie Erika James.
Alerta: não vejam enquanto comem.
Lembram-se do belo ano de 2020, em que o MOTELX aconteceu entre restrições da pandemia e os vossos colaboradores preferidos não escaparam a mais uma infeção sarscov-2? Não? É que eu lembro-me e bem, particularmente porque sinto que foi dos últimos anos em que o menu de deleites oferecido pelo festival foi altamente satisfatório. Entre as ofertas: Relic. A mesma realizadora traz-nos, passados quase sete anos da sua última longa-metragem, mais uma obra dentro do género do terror, ao qual não pode faltar o horror corporal.
Saccharine aborda problemáticas que são transversais a qualquer faixa etária, mas que sempre têm vindo a afetar as camadas mais jovens. Estamos a falar do terror da imagem corporal, perturbações do comportamento alimentar, vigorexia e dismorfia corporal.
«Hana, uma estudante de Medicina com o coração partido, passa a ser aterrorizada por uma força sinistra após aderir a uma moda obscura para perder peso: ingerir cinzas humanas.»
Uma sinopse demasiado reveladora, pensei eu, antes de me aventurar pelas camadas que a 1 h e 53 min da metragem oferecem ao espectador.
Eu adoro comer enquanto vejo filmes, mas, desta vez, tive de colocar os petiscos de lado.
A forma visceral com que está retratada a compulsão alimentar, o sofrimento psicológico de quem come as emoções e cai numa espiral de culpa-ingestão-culpa, e a fixação com o corpo ideal a todo o custo, apresenta-se como um pequeno verme que rapidamente entra pela pele de quem recebe a mensagem.
O meu Ben & Jerry’s não me soube mais a manteiga de amendoim, mas sim a nojo e a revolta.
Perturbador, eu sei.
Tenho estado um pouco afastada do mundo do cinema, e talvez isso me tenha tornado mais suscetível a ser surpreendida e incomodada, aceito, mas gostei da experiência. Serviu como um limpa-palato. Saccharine foi uma refeição que não consegui parar de consumir e que depois perdurou nas papilas gustativas.
O elenco conta com Midori Francis, Danielle Macdonald e Madeleine Madden. Não são desempenhos memoráveis, mas satisfatórios o suficiente para permitir que nos foquemos nas tramas e reviravoltas. Saccharine é uma chama que arde lentamente, com o seu toque (por vezes, um pouco exagerado) de terror sobrenatural a intensificar o horror corporal da obesidade vs magreza extrema. Também o horror de uma finitude próxima é retratado, sendo talvez essa uma segunda semelhança com a obra anterior de Natalie Erika James.
O final é a concretização de uma ameaça repetida subtilmente ao longo de todo o filme e, quando acontecer, todos irão saber a que me refiro.
Não é totalmente imprevisível, mas, mesmo sendo expectável, não deixa de impressionar. Se tivesse continuado a comer o Ben & Jerry’s, era capaz de não ter ficado no estômago… Ao menos, tinha um quando o filme acabou. Há que louvar as coisas pequeninas.
Recomendo a todos que arrisquem, mas deixem as pipocas fora do plano.
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Maria Varanda
Diz-se que nasceu em Portugal em 1994, pelo menos nesta reencarnação. Quando a terceira visão está alinhada, brotam ideias na sua mente que a inquietam e tem de as transcrever para o papel para sossegar o espírito. Chamam-lhe imaginação, mas se calhar as ideias vêm de outro lado, e Maria serve apenas de meio de transmissão. Procura-se quem queira ouvir a mensagem.






