Brussels International Fantastic Film Festival

«Totem» ou o Elogio do Cocó

Se alguém foi ver este filme sem saber muito bem ao que ia, o realizador e ator Fred de Loof dissipou as dúvidas ao pedir ao público, na recente projeção no Festival Internacional de Cinema Fantástico de Bruxelas (BIFFF), que contasse em voz alta as vezes que a palavra «cocó» (caca, no original) era dita no filme.

De Ricardo Figueira

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Os primeiros minutos dão para perceber que estamos perante um exemplar da comédia belga no que ela tem de mais absurdo e extremo — ou não fosse este o país que nos deu clássicos como C’est Arrivé Près de Chez Vous, de Benoît Poelevoorde — neste caso, uma absurdez pejada de referências escatológicas.

Na história, um ex-escuteiro é levado por uma psicóloga a reunir o antigo grupo num acampamento, para encenar os eventos que levaram aos traumas que o afligem — vinte anos antes, naquele mesmo local, um dos elementos tinha desaparecido, depois de sujeito a um terrível bullying por parte dos companheiros. Rapidamente, o grupo percebe que consegue mergulhar (literalmente) num túnel temporal e encontrar os seus «eus» adolescentes, se entrar no buraco usado como latrina…

A alegoria parece, à primeira vista, tonta e infantil. Mas, na verdade, esconde uma camada para lá da simples comédia, ao representar a nossa própria confrontação com o «eu», no que tem de mais mesquinho e maldoso. O realizador explica na primeira pessoa:

«No filme, de um ponto de vista analítico, a pessoa mergulha nos seus próprios excrementos para resolver os seus problemas, o que é muito simbólico. Não estou a ensinar nada se disser que o cocó é aquilo que nós rejeitamos. A ideia é que, ao mergulhar naquilo que produzimos, resolvemos os nossos problemas. Não quero com isso dizer que devemos mergulhar no nosso cocó, mas há uma altura em que temos de mergulhar nos nossos problemas para os resolver. Não é puxando o autoclismo que eles desaparecem», diz Fred de Loof.


O grande mérito do filme é, justamente, pôr-nos a refletir sobre um tema sério e grave — o bullying — através de uma comédia sem travões.


Diz Fred de Loof: «O bullying é sempre uma questão de ponto de vista. Quem o pratica tem a sensação de estar a fazer algo engraçado, para rir. Mas, para quem o vive, é um drama, não tem nada de engraçado. Por isso, quisemos juntar a forma e o fundo, ao fazer uma comédia sobre o bullying — uma comédia que é, ao mesmo tempo, um drama».


Por toda a sucessão de elementos absurdos em roda livre, que nos fazem dar gargalhadas, mas ao mesmo tempo pensar, este pode ser um filme de merda — mas está longe de ser uma merda de filme (4/5).


O festival de Bruxelas

O ambiente de rebaldaria entre o público que se viveu durante a projeção de Totem está longe de ser uma exceção e é mesmo a regra aqui. Poucos festivais haverá com um público tão reativo, que nunca deixa um realizador ou ator sair do palco sem cantar uma canção e reage em permanência ao que vê no ecrã — se aparece a Lua, o público uiva; se alguém acende um cigarro, o público tosse; se aparece um gato, o público mia — isto para dar apenas alguns exemplos. Se um filme deixa o público apático, é porque é mesmo mau.

Romain Roll, o divertido e boémio diretor do festival, explica: «Somos um festival para o público. É a nossa tradição, desde há 40 anos, ter um público interativo». E é isso que faz de Bruxelas um festival único.

Neste ano, em que celebrou uma data redonda — edição número 40 —, o BIFFF teve como convidado especial John McTiernan (Predador, Assalto ao Arranha-céus) e o grande vencedor foi Vesper, de Bruno Samper e Kristina Buozyte (que já passaram pelo Fantasporto com o anterior Vanishing Waves), que foi igualmente filme de abertura. O festival decorreu de 29 de agosto a 10 de setembro.

Entrevista com o realizador Fred de Loof (em francês)

Ricardo Figueira

Ricardo Figueira nasceu em Lisboa e é jornalista do canal Euronews, sediado em Lyon (França), onde vive desde 2003, depois de um primeiro período entre 1999 e 2001, e de ter também trabalhado para a RTP. Assina um espaço semanal de opinião na Rádio Alfa. É igualmente fotógrafo, tendo participado em várias exposições e projeções, tanto individuais como coletivas, em vários países, incluindo uma recolha de retratos de portugueses e lusodescendentes residentes em França. É coautor e corealizador da curta-metragem Motorphobia, exibida no Fantasporto em 2016. O confinamento de 2020 fê-lo retomar o gosto pela escrita. É autor de vários contos e terminou recentemente o seu primeiro romance, Depois da Bomba, que espera ver publicado durante o ano de 2022.