MOTELX: Crítica a «Speak No Evil», de Christian Tarfdrup

Vencedor do Prémio Méliès d’Argent – Melhor Longa Europeia

Maria Varanda

Ponham os olhos no coelho de peluche: ele é o portador da desgraça final de Speak no Evil; se não fosse a sua existência, o filme teria acabado muito mais cedo. Obrigada, animal de pelúcia.

Christian Tarfdrup traz-nos uma longa-metragem sobre um casal dinamarquês cuja boa educação e gentileza (chamar-lhe-ia falta de espinha, mas há que ser politicamente correto) o deixa completamente à mercê da força de expressão e expansão comportamental de um casal holandês, com quem haviam travado amizade uns meses antes numas férias em Itália.

Enquanto amante de terror, estou bastante habituada a ter de pôr de lado a descrença e aceitar que a personagem principal ainda se vai levantar e lutar depois de três facadas, dois tiros e uma fratura de fémur exposto — quer dizer, no final de contas, o que interessa é a luta pela sobrevivência, não é verdade? Mas, meu Deus, como eu estava errada: o que interessa é ser bem-educado, meninos.


Speak No Evil é dos filmes mais desconfortáveis que já vi nos últimos tempos, pura e simplesmente porque as nossas personagens principais não fazem nada. NADA.


A supremacia da boa educação é levada ao limite nesta longa-metragem onde Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) permitem que os seus limites, espaço pessoal e individualidade sejam espezinhados e depois devorados por Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders), mesmo quando é a própria filha que está em causa.

Diferente e perturbador, este é um filme sem sustos ou terror gratuito: não há monstros, não há fantasmas, não há membros decepados e vísceras em ecrã (quer dizer… só uma, prometo). Livre de qualquer elemento mais «clássico» e «popular» dos inúmeros filmes de terror a que estamos acostumados, Speak No Evil é um sucesso em aterrorizar o espectador: a passividade do casal dinamarquês é tão horrenda que será difícil conter um grito dirigido ao ecrã (MEXAM-SE, BOLAS, LUTEM!) Mesmo quando o fim é percebido como inevitável, o instinto de sobrevivência é dominado pela submissão.

Levando ao limite a política e ideologia de reprimirmos as nossas opiniões e comportamentos, no receio último de ser menos cortês ou «educado», Speak No Evil mostra-nos as consequências-limite da inexistência de oposição. E se todo o conceito do filme não o incomodar, que incomode a chocante banda sonora que chega aos nossos ouvidos logo na primeira cena e se prolonga bem depois de mudarmos para cenas mais soalheiras, como um arrepio atrás da nuca.


Vencedor do prémio Prémio Méliès d’Argent – Melhor Longa Europeia na 16.ª edição do MotelX, Speak No Evil é sem dúvida digno do louvor.