Nosferatu: 100 Anos de Terror — Entrevista aos organizadores

Alexis Viegas e Patrícia Sá falaram com a Fábrica sobre o evento de comemoração do centenário do filme de Murnau

«Por muito trabalho que tenha dado, foi mesmo muito gratificante»

Sandra Henriques

Reunir académicos e artistas em palco para falar de terror pode ser considerada uma atitude provocatória, e foi. Mas não no sentido que possam pensar.

Alexis Viegas e Patrícia Sá, alunos de mestrado de Estudos Comparatistas, tomaram as rédeas do desafio de celebrar o centésimo aniversário do filme Nosferatu, ao mesmo tempo que traziam esta obra (ou os seus ecos) para a contemporaneidade do século XXI. O resultado foi um evento multidisciplinar à volta do terror, com casa cheia, em junho de 2022, algo que eu julgaria impensável há uns anos.

 

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Qual é o vosso background, quem é o Alexis Viegas e a Patrícia Sá?

Patrícia Sá: Eu sou a Patrícia Sá, sou estudante de mestrado de Estudos Comparatistas. Tenho licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Estou a fazer a dissertação de mestrado sobre os ecos literários de Frankenstein.

Alexis Viegas: O meu nome é Alexis Viegas, sou aluno de mestrado de Estudos Comparatistas, sou licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas e sou colaborador da equipa editorial da Estrema (a revista académica do Centro de Estudos Comparatistas). Fora isso, estou a trabalhar na minha dissertação de mestrado sobre o flashback no The Last of Us: Part II.

 

Como é que começa esta aventura de organizar o evento Nosferatu: 100 Anos de Terror? E porquê o Nosferatu, especificamente?

PS: Este ano foi o centenário do filme e [o convite para organizar este evento] surge depois do lançamento do Sangue Novo [em novembro de 2021]. A Prof.ª Doutora Claudia Fischer, que assistiu ao lançamento do livro, tinha ficado feliz por encontrar uma aluna que gostava de terror e achou que eu seria a pessoa indicada para fazer um evento dedicado ao centenário do Nosferatu. Mas tinha de ser fora do espaço académico, para ser também aberto ao público [em geral]. Quando estava a organizar a equipa para este projeto, lembrei-me do Alexis. Por ser uma pessoa com quem eu trabalho bem e uma pessoa em quem eu confio.

 

E essas eram as vossas linhas orientadoras?

PS: Sim, o centenário do Nosferatu e ser um evento aberto ao público. E tinha de ser fora da FLUL.

 

Tinha de estar associado à Academia?

PS:  Sim, iríamos sempre partir dessa nossa raíz.

 

A base do evento seria exibir o filme, mas como é que surge a ideia de fazer tudo o resto: a mesa-redonda para falar de terror e a call for artworks?

AV: A primeira ideia de todas foi o call for artworks. Gostávamos que as pessoas nos enviassem os seus trabalhos como forma de reinterpretar o filme.

 

Porque é que era importante a call for artworks para vocês?

AV: Porque foi a nossa maneira de atualizar o filme e trazê-lo para a contemporaneidade.

PS: Exato. Quem quisesse submeter [uma obra] submetia. [Queríamos que os artistas] reinventassem o Nosferatu em vários meios: cosplay, filmes, escrita…

AV: A call for artworks tinha de ser o mais aberta possível. Até chegámos a dizer que, mesmo que alguma categoria não tivesse sido mencionada, estávamos abertos a que nos enviassem e nós decidíamos se se enquadrava ou não. Abrimos completamente. Estava do lado dos artistas, das pessoas, daquilo que quisessem fazer.

 

E a vossa professora também tinha abertura para isso?

PS: Sim, sempre apoiou todo este processo com entusiasmo.

 

Porque é que dizem que a chamada para artistas foi um can of worms?

AV: Porque a call for artworks já estava aberta há uns dois meses, sabíamos que era pouco tempo e não estávamos a receber muita coisa. No final, ficámos muito surpreendidos com a adesão. Depois, aconteceu um problema maior, com as licenças, que nos impediu de promover o evento ainda mais.

PS: Como foi no São Jorge — e nós ficámos muito contentes porque era o sítio onde queríamos fazer o evento desde o início — havia a questão das licenças da IGAC.

AV: A burocracia das licenças fez-nos perder algum tempo. Estávamos a um mês do evento! Mas conseguimos resolver. Voltando à questão inicial de como é que chegámos à ideia de termos também oradores, a verdade é que pensámos sempre nos artistas inicialmente, mas pensámos que seria importante termos uma contextualização um pouco mais profissional em relação ao Nosferatu, mas também ao terror. E aí foi a parte mais divertida, fazer um brainstorming de quem é que íamos chamar. O teu nome foi o primeiro.

PS: E a partir daí, sugeriste-nos o David Soares. Também pensámos no Prof. Doutor Santiago Pérez Isasi, porque ele escreve terror e também percebe de terror em termos académicos. A Prof.ª Doutora Luísa Afonso Soares percebe muito de Expressionismo Alemão e de cinema alemão, por isso fazia todo o sentido. E depois ainda pensei no Paulo [A. M. Oliveira], que é realizador de terror.

AV: E que disse na entrevista à Fábrica [do Terror] que uma das grandes influências dele era o Murnau. Já tínhamos dois escritores, fazia sentido termos também um cineasta.

 

O evento estava muito bem organizado, a conversa entre os oradores fluiu muito bem. Os meus parabéns por isso. E mesmo que tenha acontecido algo de menos positivo, que é natural que aconteça, isso não passou cá para fora.

AV: Tudo excedeu as nossas expetativas. Vocês puxavam a conversa.

PS: Foi um grande painel! Nós recebemos elogios!

AV: O painel foi tão bom que a Professora Luísa veio falar connosco no final para dizer que gostava que voltássemos a reunir estas pessoas, se fosse possível, para irem falar a uma aula dela de cinema alemão.

 

Em palco, vocês conseguiram juntar academia e artistas, que geralmente são duas fações opostas. Ou vistas como opostas.

AV: Acho que a discussão foi bastante saudável.

PS: Foi produtivo.

AV: Houve uma abertura grande de todas as partes para ouvir o que as pessoas estavam a dizer.

 

Até conhecer a Patrícia, eu não sabia que se levava o terror a sério nas faculdades. Como é que vocês se sentiram quando fizeram a proposta das vossas dissertações de mestrado sobre temas considerados menos académicos? Ou melhor, o que é que acham que mudou para haver maior abertura a estes tópicos?

AV: O corpo docente.

PS: Sim, também acho que sim. O corpo docente está mais diversificado, se calhar, com mentes mais inovadoras e mais ideias.

AV: E isso também é, em parte, uma abertura de [Estudos] Comparatistas, especificamente. Mesmo ao nível do doutoramento, acho que há uma abertura muito grande em termos de tópicos. Eu sei que, em doutoramento, há uma pessoa a trabalhar terror dentro dos estudos queer, e depois tens outra pessoa que está a fazer estudos pós-coloniais. Portanto, há uma abertura muito grande em Comparatistas para isso, precisamente também porque o corpo de investigadores é muito eclético.

 

Fico muito contente com isso, de ver que o interesse está a crescer.

AV: Nós também.

 

Espero que um dia sejam convidados para inaugurar um departamento dedicado ao estudo da ficção especulativa.

PS: Nós adorávamos. As nossas dissertações com certeza nos direcionam para esse caminho no futuro.

 

Eu acho que vocês estão aqui a abrir uma porta para futuros estudantes e investigadores.

PS: E é verdade. Tanto em Estudos Ingleses, como em Estudos Comparatistas], há pessoas que fazem teses sobre outros tópicos também considerados «marginais».

AV: Tem sido uma aventura interessante, dar de caras com tópicos a que algumas pessoas não estariam habituadas.

 

Vocês veem, daqui a uns anos, mudanças a nível do ensino secundário da área de Humanidades?

PS: Eles não dão livros que os alunos queiram de facto ler, ou que sejam adequados à idade de eles lerem e apreciarem.

AV: Há uma falta de atualização.

 

Acham que, no futuro, se vão ver mais livros de ficção especulativa a serem ensinados?

PS: O que vejo é tudo a ser resumido a fichas de gramática e exames, se as coisas não mudarem. Porque, se houvesse professores com vontade de deixar os alunos escolherem os livros que querem ler, acho que seria diferente.

AV: O problema é que o programa que é montado — pelo menos, é a sensação com que eu fico — é sempre em preparação para o que vai sair nos exames. Ou seja, não há muito espaço para ler outras coisas. As pessoas querem dar aos jovens os clássicos. Eu percebo que tem de haver algum contacto com estas obras clássicas, no entanto, o programa não devia ser feito apenas à volta dessas obras. Devia partir das obras clássicas para chegar a uma coisa mais contemporânea.

 

Como é que veem o futuro do terror em Portugal?

PS: Acho que depende das pessoas, mesmo. Da parte do público, como o David Soares diz. O terror está sempre cá, nunca morre. Pelo menos, agora. Ou, se calhar, sou eu que agora estou mais atenta, estou a ver uma renaissance. De repente, há muita gente a gostar muito de terror.

AV: Não quero estar a atribuir isto só a este aspeto, mas acho que um dos fatores muito importantes é a abertura que começou a haver com o Game of Thrones, que chegou a pessoas que nunca tinham pegado em fantasia na sua vida. Chegou ao mainstream. Começaste a ter pessoas que compraram os livros porque nunca tinham lido nada do género.

PS: E o Harry Potter.

AV: Também, mas o Harry Potter, se calhar, formou uma juventude que hoje em dia estaria muito mais aberta. Mas definitivamente acho que foi o Game of Thrones que ajudou a catapultar [o interesse]. E certos filmes de terror que, de certa forma, também foram catapultados para o mainstream, como o It, por exemplo.

PS: O Walking Dead também ajudou.

AV: Acho que ajudou, mas sinto que houve um boom com a moda dos zombies e depois ninguém pegou naquilo para fazer mais coisas com a mesma projeção. E eu digo isso com muita pena, porque zombies são o meu género favorito. Mas, voltando à questão inicial, sem dúvida que o que ajudou a catapultar esta abertura [para o terror] foi o fenómeno mainstream de coisas como o Game of Thrones e o It. Acho que as pessoas, ao verem o It, ficaram um bocadinho mais abertas à ideia de poderem ver um filme de terror.

 

É triste terem de chegar ao mainstream para passarem a ter valor. É uma sensação agridoce.

AV: Concordo. Ainda há o medo do medo. Mas há formas muito diferentes de fazer terror. Não tem de ser jump scares, não tem de ser gory, não tem de ser nenhuma destas coisas que estamos habituados a que seja. O terror não é uma coisa. Há muitas formas de fazer terror e de chegar a ele. Há terror que funciona para umas pessoas e não funciona para outras.

 

Falando do mainstream, o que acharam do alcance deste evento e da sua possível posteridade?

AV: Em relação ao Nosferatu, estávamos preocupados com a posteridade daquilo que nos foi enviado. O que mais queríamos era que as coisas não ficassem perdidas neste evento. Recebemos coisas com muita qualidade e queríamos que houvesse um sítio onde as pessoas pudessem aceder a elas. Por isso, criámos o site.

PS: E abrimos conta no Instagram e, recentemente, o canal de YouTube. Em breve, também haverá uma publicação. É daquelas coisas fantásticas podermos fazer isto. Conseguimos proporcionar um debate sobre terror, conseguimos mostrar obras de artistas novos com terror e sem terror. Por muito trabalho que tenha dado, foi mesmo muito gratificante.

AV: Foi a coisa mais gratificante, sem dúvida.