Crítica a «Nada Há a Temer», de Raquel Fontão
Uma escritora bloqueada, duas «trad wives» e uma quinta. O que pode correr mal?
Mostrando o amadurecimento da escrita desde a sua obra de estreia, Raquel Fontão presenteia-nos com um livro que nos leva a questionar até ao último minuto.
Teresa Mendonça tem de escrever um livro, mas desde a morte do marido que se sente bloqueada. Sara e Lia são irmãs, vivem numa quinta com os respetivos maridos e (vários) filhos, e seguem ideais conservadores que as incluem no leque das trad wives (abreviatura de traditional wives, mulheres que voluntariamente adotam os papéis de género ultratradicionais de mães e donas de casa).
A ideia é que o cenário campestre inspire Teresa a escrever alguma coisa, mas rapidamente tudo se torna questionável.
Acho que é inevitável, para a maioria das pessoas, sentir que algo de muito errado se passa logo desde o primeiro instante em que o livro começa (ou não fosse o prólogo o que é) e tentar conectar detalhes, criar teorias, imaginar possíveis cenários.
Por esse motivo, vou já dizer que, à superfície, a história não me surpreendeu, pois consegui perceber para onde caminhava.
O verdadeiro poder de Nada Há a Temer, no entanto, está em afastar o superficial e dar lugar às questões que teimam em cutucar a nossa mente.
É difícil falar do livro sem dar spoilers e, honestamente, não quero fazê-lo para dar oportunidade a outros leitores de passarem pelo mesmo. O que posso dizer é que esta história sobre poder, submissão, opressão, identidade e fé (em nós e nos outros) nos leva propositadamente por um caminho, ao mesmo tempo que escreve outro — um caminho mais negro, de empoderamento, por mais distorcido que seja.
O facto de termos a perspetiva de Teresa Mendonça, a escritora, também ela uma narradora pouco confiável e dada a alguns frenesins, apenas adensa essa dualidade.
O final é claro, bem descrito na página, com muito pouco por onde lhe pegar em termos de dúvidas, mas, ao mesmo tempo, quando fechamos a contracapa e começamos a matutar naquilo que terminámos, quando começamos a juntar peças e a olhar para certos eventos de outra perspetiva, quando pensamos no manuscrito de Teresa, será que sabemos mesmo o que acabámos de ler?
Poderá haver ali uma narrativa paralela (quiçá até várias) que surgem em pequenos gestos e palavras, e que não chegam a ser contadas? Uma opressão aparentemente submissa que funciona como um som de baixa frequência, que incomoda quem assiste, mas cuja causa está escondida?
Da minha parte, apenas posso terminar dizendo que a Raquel Fontão conseguiu igualar as minhas expectativas, que estavam bastante elevadas, deitando cá para fora uma obra de referência no terror português (venham mais!).
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Laura Silva
Apaixonada por histórias desde 1992, é escritora nas horas vagas e pasteleira aos fins-de-semana. O gosto pela leitura deu muito jeito para a licenciatura em Direito, mas agora é constantemente abordada por amigos e familiares para consultoria jurídica gratuita. Extremamente traumatizada em criança pelo Cadeirudo, acabou por aprender a gostar de todas as facetas da ficção especulativa, que hoje se revela o seu género favorito.





