Crítica a «A Aia», de Eça de Queiroz
Curto e direto, mas forte o suficiente para ficar connosco para lá da última página.
Eça de Queiroz prova-nos, mais uma vez, por que motivo é um dos grandes autores da literatura portuguesa.
Como falar de um conto que tem pouco mais de cinco páginas? Difícil. Mas, se fazer isto fosse fácil, eu não estaria aqui, mês após mês, a tentar convencer-vos a ler terror português (rimei; deem-me um biscoito!).
«A Aia» não será visto como um conto de terror pela maioria dos leitores; talvez o identifiquem como dramático (que é), mas, quando comparado com «O Defunto», é fácil ignorar o horror que permeia esta história.
Ainda assim, num conto em que a escravidão e vassalagem cegas são determinantes para um dos maiores horrores da humanidade, como podemos nós olhar para «A Aia» como algo meramente dramático?
Alguém mais cómico dir-vos-ia que o verdadeiro horror é a nossa personagem acreditar que, após a sua morte, continuará a servir o seu rei no Céu (era o que me faltava ter de aturar o meu patrão depois de bater as botas!), mas, quando a lealdade e o amor se misturam de tal forma que o ato moralmente correto é, simultaneamente, um ato hediondo, é difícil ficar pelo humor.
As construções frásicas de Eça de Queiroz são, como de costume, extremamente líricas e potentes, de uma inteligência inspiradora para quem se quer aventurar no mundo da escrita (ou simplesmente para quem gosta de bom português), mas o conceito por detrás d’«A Aia» (as questões culturais, hierárquicas, étnicas, o contexto histórico, a evolução socioafetiva das relações entre pares) é, por si só, extremamente complexo, permitindo que o leitor seja colocado numa posição moral difícil de resolver.
É, sem dúvida, uma leitura recomendada, particularmente para quem pretende pensar naquilo que lê (aparentemente algo em desuso nos tempos que correm), mas também para quem quer explorar o género do terror sem avançar de modo profundo nos seus temas mais sangrentos.
E se, mesmo assim, não se sentirem convencidos a ler pelo que acabei de vos dizer, deixo-vos a minha citação preferida e desafio-vos a ler o conto e a desconstruir o significado de uma frase tão simples: «Uma roca não governa como uma espada.»
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Laura Silva
Apaixonada por histórias desde 1992, é escritora nas horas vagas e pasteleira aos fins-de-semana. O gosto pela leitura deu muito jeito para a licenciatura em Direito, mas agora é constantemente abordada por amigos e familiares para consultoria jurídica gratuita. Extremamente traumatizada em criança pelo Cadeirudo, acabou por aprender a gostar de todas as facetas da ficção especulativa, que hoje se revela o seu género favorito.




