Crítica a «Carrie, O Musical»

Um espetáculo do Estúdio de Teatro Musical da Primeiro Acto

«Uma boa experiência que mostra que, mesmo com pouco dinheiro, não falta talento em Portugal e que coisas boas podem ser feitas.»

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Cláudio André Redondo

O primeiro livro publicado de Stephen King, Carrie, é uma história que poucos amantes de terror não conhecerão. Não é por isso de estranhar que tenha não só recebido adaptação ao cinema como, mais tarde, a musical. E se a primeira adaptação, de 1988, foi um fracasso, a versão de 2012 foi muito mais bem acolhida. Talvez porque, na segunda tentativa, Lawrence D. Cohen, argumentista da adaptação de Carrie ao cinema e autor de ambas as versões do musical, se focou na vertente mais psicológica da história, acrescentando à mesma a perspetiva de Sue Snell, a única sobrevivente da tragédia do baile de finalistas.
Foi precisamente essa a versão que a Primeiro Acto decidiu adaptar. Com encenação de Sofia de Castro, a história é-nos sempre contada num tom pesado e escuro, com cenários minimalistas e despidos que nos deixam desconfortáveis e inquietos, mesmo quando as músicas nos parecem tentar enganar, puxando-nos para um tom mais alegre.
O musical contava com atores diferentes para os principais papéis em cada sessão. A versão que tive oportunidade de ver contava com Rafaela Ribeiro no papel de Carrie White, Sofia de Castro como Margaret White, Inês de Castro como Chris Hargensen, Carolina Ferreira como Sue Snell, Tomás Esteves como Tommy Ross, Bruna L. Rocha no papel de Miss Gardener e Tiago Ferreira como Billy Nolan.
Todos eles não só representaram bem os seus papéis como me fizeram sentir que estava perante personagens reais, que existiam para lá da história, interpretando também as músicas com uma mestria que fazia esquecer que tudo se tratava de um musical realizado por uma escola de teatro.
Gostaria, no entanto, de destacar a interpretação de Rafaela Ribeiro, que, durante quase todo o musical, desempenhou bem o papel da rapariga tímida que não conhece o mundo e sofre com isso, mas que, após a descoberta dos seus poderes, quase pareceu mudar fisicamente, vendo-se a confiança nos seus olhos e em pequenos gestos. Destaco também a interpretação de Sofia de Castro, que, ao contrário da versão literária, que nos apresenta uma mãe obsessiva, nos trouxe, neste musical, algo mais parecido com uma mãe protectora, marcada por uma vida trágica, dando uma camada interessante à personagem. E, finalmente, ainda uma menção especial a Inês de Castro, que desempenhou tão bem o papel de miúda popular mimada, que nunca ouviu um «não» na vida, que fez com que quase a detestasse. E digo isto da forma mais elogiosa possível.
No geral, foi uma boa experiência que mostra que, mesmo com pouco dinheiro, não falta talento em Portugal e que coisas boas podem ser feitas. Como tal, o que a Primeiro Acto fez foi uma excelente adaptação de um clássico do terror.


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Cláudio André Redondo

Apaixonado pelos livros desde os oito anos. Desde essa idade que sempre se aventurou pela escrita e foi acumulando histórias na gaveta, mas só recentemente começou a contar histórias de terror. É nesse género que encontra, atualmente, o maior prazer de escrever, sentindo por vezes que abriu uma porta para um lugar sombrio de onde figuras negras procuram sair. A gaveta abriu-se, resta saber o que de lá vem.

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